Brincando de Larry King

05/01/2011

King - 1000 anos de entrevistas

Algumas entrevistas que fiz para a Época em 2010 fizeram mais sucesso que outras. E uma coisa ficou óbvia, nem sempre o interesse jornalístico combina com o interesse do leitor. Por isso, seguem as mais importantes dos últimos 3 meses.

A que fiz com Joe Jackson foi marcante. A cada hora que passava ela ficava melhor e mais importante. Começou com um ping-pong na livraria Saraiva do Shopping Eldorado e terminou com um jantar no Figueira Rubaiyat.

Com Matthew Lewis da série Harry Potter ficou um convite no ar para jogar Fifa no Xbox.

A entrevista com Peter Hunt foi uma aula extracurricular, assim como a entrevista do Cid Moreira que naquele dia da entrevista teve 3 assuntos no seu Twitter: Os Salmos, Jesus e Julio Lamas.

Foi gostoso brincar de Larry King, mas chega de Época agora. O próximo post será uma exclusividade do Notas.

Entrevista com o especialista em Literatura Infantil Peter Hunt sobre o sucesso da série Harry Potter

Entrevista com o ator Matthew Lewis, o Neville Longbottom na versão de Harry Potter para os cinemas

Entrevista com Joe Jackson (pai de Michael Jackson) no lançamento do livro ‘O que realmente aconteceu a Michael Jackson’ de Leonard Rowe

Entrevista com Cid Moreira

Entrevista – Rui Amaral

02/01/2011

Galera fã do NOTAS (oi pai, oi mãe!) segue uma entrevista minha com o artista Rui Amaral que estava na gaveta faz muito tempo. Foi feita em 2008 quando eu ainda estava pensando em fazer um documentário sobre graffiti. Em 2010, esse documentário virou realidade e é o “Graffiti – Arte Bruta”, um projeto produzido por mim, Felipe Gomide e Raphael Sassaki. Vou colocar aqui um link para dowload assim que puder.

Tenho que pedir desculpas a mim mesmo e a qualquer leitor ocasional (oi meninas que me acham bonitinho e tiveram curiosidade!) que por aqui passou em 2010, acreditando na promessa de frequêcia maior de posts feita ano no ano passado. Fiquei um ano sem postar, pois estava ocupado trabalhando no “Graffiti- Arte Bruta” e vendendo o talento para a revista Época – a segunda maior revista semanal do país. Por lá, trabalhei com o Juliano Machado na editoria de Internacional, com Paulo Moreira Leite (lenda viva!) na coluna “Vamos Combinar” e com Luís Antônio Giron na editoria de Cultura. Com todos aprendi muito, mas ainda guardo a impressão de que poderia ter feito mais. “Quando Neymar quer jogar, não falta ‘Dorivais’ para barrar”, um amigo uma vez me disse.

Tenho ótimas entrevistas desse período na Época. Vou postar algumas assim que o período de quarentena acabar.

2011 que venha…vou recompensar pelo tempo perdido e continuar a pagar os juros do tempo ganho.

 

Graffiti de Rui Amaral no "Buraco da Paulista"

Rui Amaral – Graffiti e Pixação, linguagem urbana

Considerado um dos mais influentes artistas do graffiti no Brasil, o multimidiático Rui Amaral integra o panteão da primeira geração da arte urbana em São Paulo, surgida no fim da década de 1970. Um criador inquieto e versátil, ele explorou diversas plataformas como a animação, a toy art e a produção de vídeos.

Formado pela FAAP em Artes Plásticas, Amaral teve exposição de seu trabalho na Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAC, MIS, Funarte e MAP, além de possuir obras suas no acervo do MASP.

Diretor-geral da agência Artbr (www.artbr.com.br), já realizou projetos de design gráfico, animação e produção de arte multimídia em parceria com a Rede Globo, Rede Bandeirantes de Televisão, o jornal O Estado de São Paulo, StarMedia, Nestlé, Instituto Sócio Ambiental, Swatch, entre outros. Trabalhou também na criação de sites para as agencias de publicidade DM9 e O2. Além disso, é responsável por workshops e oficinas de graffiti e intervenção urbana.

Suas obras pós-modernas, que remetem ao universo da imaginação infantil e da modernidade urbana, podem ser encontradas em diversos pontos da cidade, como a que está no “Buraco da Paulista” – túnel que liga a Avenida Doutor Arnaldo à Avenida Paulista – e foi tombada como patrimônio artístico pelo Estado. “A excelente qualidade da produção pessoal de Rui Amaral poderia levá-lo a caminhos já traçados pela maioria dos artistas plásticos, seus conterrâneos. Mas, ciente de seu papel social, Amaral atua, e com arte refaz não apenas cenograficamente, a sua cidade: São Paulo”, resume o crítico e historiador da Aica/Unesco João Spinelli.

Nesta entrevista ao NOTAS, ele conta sobre o seu trabalho, a valorização do graffiti brasileiro como arte no mundo e os obstáculos internos, como a Lei Cidade Limpa. Expõe também a sua opinião sobre pixação, novas tecnologias e a necessidade de estímulo a cultura.

NOTAS – Em 2008, a Prefeitura de São Paulo apagou acidentalmente um graffiti d’Os Gêmeos na Radial Leste, o que gerou muita polêmica com a Lei Cidade Limpa. Como você vê a relação entre a arte urbana e essa legislação em vigor na cidade de São Paulo?

Rui – Apesar dessa Lei, eu e muitos outros artistas estamos aos poucos estabelecendo um diálogo prolífico com as autoridades. Muitos espaços “nobres” foram abertos em toda cidade, pontos de ônibus e outdoors, por exemplo. Espaços que podem ser aproveitados pela arte de rua para revitalizar e criar uma cidade mais bonita com arte popular e integração social.

Porém, no lado negativo da questão, muitos trabalhos bons de artistas conceituados, como os Gêmeos, foram apagados, ou correm o risco de serem apagados. Por isso esse diálogo com as autoridades responsáveis como Andrea Mattarazo e Regina Monteiro tende a envolver questões relacionadas à formação desses agentes públicos, responsáveis pela execução da Lei. É preciso, creio eu, que haja participação desses agentes em oficinas e workshops de arte de rua, uma maneira de conscientizar sobre a sua importância e treinar o olhar para o que deve e o que não deve ser apagado pela tinta cinza. Eu e Os Gêmeos sugerimos algo nesse sentido para o Andrea Matarazzo e a Regina Monteiro, diretora do EMURB, como uma palestra para esclarecer melhor o assunto.

NOTAS – Já apagaram alguma obra sua?

Rui - Para você ter uma idéia de como isso acontece, pintamos os postes aqui na rua do meu ateliê apareceram agentes de fiscalização da [Lei] Cidade Limpa para apagar o trabalho. No mesmo momento fui conversar com o responsável e explicar para ele que aqueles desenhos não eram o que ele pensava. Trocando opiniões, ele entendeu e manteve. Inclusive ele mesmo contribui com alguns desenhos (risos).

NOTAS – Como um dos pioneiros da arte urbana em São Paulo e, consequentemente no Brasil, você vê a evolução da mesma ao longo dos anos?

Rui – É uma arte que surgiu do vanguardismo de artistas como Alex Vallauri e de grupos como o TupyNãoDá, do qual fiz parte, na década de 1980 e hoje passa por esse momento especial.

Vejo a evolução do graffiti muito relacionada como a evolução do skate, por exemplo, pois também foi um elemento na criação da cultura urbana que surgia na época em São Paulo. Quando jovem eu andava de skate com amigos nas ruas do Morumbi e tínhamos que jogar as pranchas em terrenos baldios sempre que a polícia passava por nós, justamente pra evitar que fossem confiscados. Hoje a cultura do skate é uma indústria absorvida pelo mercado, está envolvida na moda, nas artes gráficas, entre tantas outras coisas. O graffiti começa a passar por esse momento da absorção, da legitimação pelo mercado, a custo de muita iniciativa de artistas gráficos, como eu, além de projetos sociais que são realizados nas comunidades carentes, onde o graffiti e mesmo a pixação, são uma linguagem da realidade urbana vivida por eles.

NOTAS – Qual a importância do graffiti brasileiro no mundo?

Rui – Desde os anos 80, nossa arte tem chamado a atenção lá fora, o que começou com projetos em parceria com instituições como o Adido Cultura da França, galerias e museus na Europa que colocaram os artistas “brazucas” em destaque e atraíram mais gente olhando pra cá.

Eu sempre brinco que temos os “Ronaldinhos” da área. O maior exemplo atual são Os Gêmeos e o Nunca, os seus trabalho chegaram no Tate Modern Museum de Londres, em Nova York, em tantos lugares que são os sonhos de qualquer artista no mundo. Além deles, outros artistas foram responsáveis por essa consolidação mundo a fora do graffiti brasileiro e sua profissionalização, como eu,  Ozeas Duarte, Celso Gitahy, Maurício Villaça, Vado do Cachimbo, Nina, Titi Freak, Onesto, C.A.L.M.A, tantos que é uma injustiça não citar.

NOTAS – Que funções a arte urbana pode exercer diretamente na sociedade?

Rui – A arte urbana é democrática, porque é uma intervenção para a apreciação dos cidadãos de todas as classes sociais. Instiga, intriga e questiona, estimulando o “pensar a cidade” de maneira integradora. É uma ferramenta inteligente quando se trata de jovens, pois tem apelo entre aqueles que estão em busca cultura e querem aprender a fazer uma arte com a qual se identificam e que faz parte da sua realidade.  Além da cultura e da construção de um senso estético para o jovem carente.

Ontem, por exemplo, estive em cidade Tiradentes trabalhando com um projeto social para o graffiti. Uma líder comunitária me dizia o quanto é difícil fornecer uma ocupação cultural para aqueles jovens, a quantidade de jovens ociosos é impressionante em lugares de condições precárias é impressionante. O graffiti insere e cria uma porta de entrada ampla para o jovem que pode enveredar também para a fotografia, musica, computação gráfica, internet e comunicação.

NOTAS – Quais projetos seriam interessantes para ampliar essa essência integradora da arte?

Rui – Em São Paulo temos muitos projetos acontecendo, temos pontos de cultura que trabalham nesse sentido em diversas regiões, carentes ou não. Acho que algo nos moldes de um museu da arte urbana poderia potencializar esse efeito aglutinador, além de e estimular a pesquisa, a criação e a coordenação dos diversos projetos de grafite que já existem. Enfim, a construção de uma central da arte urbana em São Paulo que atuasse na divulgação do artista brasileiro que está nessa área, e fomentasse a carreira de iniciantes, incluindo aí os pichadores, por que não? É importante que uma idéia assim possa acontecer com a participação deles também, envolvendo os mais diversos tipos de linguagem e idéias, pois se trata de algo que nasceu popular e contestador.

NOTAS – Existe um limite entre a pichação, considerada contravenção penal devandalismo,e o grafite?

Rui - A origem do grafite é ilegal, a pichação que trata-se de uma arte ativista, com intenção de cutucar e contestar o poder publico. Mas hoje esse caminho da depredação é reprimido da maneira errada. Quem faz isso, o grafiteiro ou pichador de guerrilha, não está simplesmente vandalizando, está perguntando por que a cidade tem que ser cinza, por que tantos problemas sociais e desigualdade onde vive.  Uma ação que combate, que bate de frente com outras pessoas é sempre um pouco complexa, por não se entender os motivos por trás disso.

NOTAS – Como valorizar esta arte?

Rui – Pra mim, como artista já reconhecido dentro da arte urbana, passou o momento da guerrilha. Durante a minha carreira criei diálogos e abri canais que tiram um pouco dessa força. Não sou um purista, acho que tudo pode ser entendido com o tempo, o grafite já foi incorporado, a pichação também pode vir a ser.

Apoio a sua valorização como arte até por ser uma entrada para a linguagem e a realidade desses jovens. O modernista Oswald de Andrade resumiu bem isso que estou tentando dizer quando escreveu que “A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”.

NOTAS – O poder público tem contribuído para esta valorização?

Rui – Dentro do possível, sim. Mas é preciso criar mais oportunidades para o jovem que se interessa por arte urbana, inserir ele numa infra-estrutura bacana com atenção para as condições precárias em que ele vive e partir para ações que embelezem e revitalizem o espaço público. Tanto quem faz, como quem gosta do graffiti quer ver arte e cultura por toda a cidade, reviver um pouco do sentimento que foi vivido na Belle Époque francesa, quando a inovação podia ser encontrada livremente. Contribui para o mundo e contribui para o mercado. Mas para que isso aconteça é preciso qualificação de muitos jovens para aprender a fazer pintura. Um lugar que formasse profissionais para fazer esse serviço, pois a arte urbana é uma arte de massas e tem um mercado crescendo.

Quando digo das massas, penso na mesma justificativa que o Grupo Santa Helena de utilizava na década de 1930. Eles tinham como objetivo ser um grupo da arte operária, uma arte das massas, exatamente onde o graffiti nasceu e evoluiu.

NOTAS – Quais são as tendências no futuro da arte urbana?

Rui – Cara, aposto muito na internet, nas novas tecnologias, ferramentas fantásticas que vão “linkar” tudo e potencializar demais as atenções na arte em geral. O graffiti tem muito espaço de ação com a webart na rede. Eu mesmo já fiz sites, animações e logos para internet, além do meu próprio site, o Artbr (www.artbr.com.br) que agrega notícias sobre o meu trabalho e diversas ações de publicidade de projetos do meio cultural e artístico. E-learning também é uma alternativa que se abre com a banda-larga, sou um dos coordenadores junto a Fundação Hermínio Ommeto na segunda experiência brasileira de tentar concretizar esse projeto com a produção diária de vídeos para mais de 400 alunos.

Papai Noel de primeira viagem

23/12/2009

Me diverti fazendo uma boa ação, mas devo admitir que Papai Noel com 1,90 m de altura e magrelo do jeito que sou não engana ninguém. “Poxa Papai Noel, desde quando você usa brinco na orelha e é tão alto assim? “, perguntou um bom observador.

Eu: o Papai Noel que não engana ninguém

O que valeu de tudo isso foi abraçar e ser abraçado com uma sinceridade e uma ternura que me colocaram no faz-de-conta também.

Obrigado a todos que comentaram no Notas em 2009 e apoiaram este projeto. Em 2010 vou trabalhar na Editora Globo e cuidar de TCC, mas não se preocupem que a frequência de posts vai aumentar.

Bom Natal e Feliz Ano Novo!

Dona Bia (minha vó) só me coloca em enrascada, hein?

A boa lição e a má educação

13/11/2009
um burro que usa batom

O silêncio vale ouro, quando não se tem nada a dizer.

Matisse ontem, hoje e amanhã

01/10/2009

Uma odalisca de Matisse na Pinacoteca

Uma odalisca de Matisse na Pinacoteca

A exposição Matisse Hoje, que estará aberta até o dia 8 de novembro na Pinacoteca do Estado de São Paulo, é o principal evento cultural organizado na comemoração do Ano da França no Brasil. Trata-se da maior exposição do artista até então no país, com 80 obras entre pinturas, estudos e algumas esculturas.

As obras do “mestre das cores” do Modernismo estão dispostas em ordem cronológica, ou seja, de acordo com o seu desenvolvimento como artista. Paralelamente, estão colocadas no percurso da mostra obras de artistas contemporâneos influenciados por Matisse (1869-1954), como Cécile Bart, Christophe Cuzin, Frédérique Lucien, Pierre Mabille e Phillipe Richard.

A primeira parte da exposição prepara os visitantes com instalações de Bart e Cuzin para o entendimento das primeiras obras do artista, concentradas no estudo do controle das linhas e da textura das cores. Na sala ao lado, “A ponte de Saint-Michel”  e seus auto-retratos feitos em placas de metal são um exemplo desse primeiro período artístico de Matisse, anterior a 1908 e o movimento Cubista.

Com a curadoria de Emile Ovaure, Philippe Richard aborda com sua instalação de setas coloridas e tridimensionais a questão do espaço e da cor, assim como Matisse, entre 1914 e 1925, estudou questões dos efeitos de luz, cor e espaço em suas obras. A esse ponto da exposição encontra-se  desenhos que estudam o domínio das formas curvílineas e pinturas que trabalham principalemente a perspectiva espacial, tais como o “Retrato de Mdme. Gougard” e “Interior em Nice”. As esculturas apesar de menos conhecidas dentro do acervo produzido por Matisse estão presentes nessa parte da exposição, especialmente por terem sido úteis no entendimentos da luz e das formas pelo artista.

A fase mais importante e conhecida do artista, que começa em 1917 e se estende até o final da década de 1930, reúne pinturas nas quais a cor e suas texturas ganham a originalidade autoral de Matisse. Quadros como o óleo “Odalisca com calça vermelha” e “Natureza-morta com Magnólia” são destacados, bem como os desenhos inspirados na sua mais conhecida modelo, Lorette – figurando em cenários orientais ou apenas em desenhos de seu torso. O uso do rosa e do vermelho nesse período consagrariam Matisse como o “artista do século XX”, segundo críticicos como Max Lieberman. Lucien e seus quadrados multi-coloridos, contextualizam visualmente com o artista francês.

A série de colagens Jazz – técnica adotada por Matisse até o final de sua vida – finaliza a exposição com uma explosão de cores e formas baseadas nas suas memórias de infância e afetivas. “Ícaro” e “Circo” são um exemplo de como a estética alegre e, ao mesmo tempo, agressiva de Matisse se mantém ao longo de seus anos de vida.

Tony Parsons: “Bang- Bang”

24/09/2009
Tony Parsons

Tony Parsons

Quando se sonha em ser o cronista da sua geração, é normal ir atrás de Balzac, Walt Whitman, Fitzgerald, Arthur Miller, Bellow…E, entre tantos, achar Tony Parsons, o jornalista do punk, é sempre uma agradável surpresa para o leitor desavisado. Digo mais, se eu não fosse eu, gostaria de ser Tony Parsons com o Sex Pistols numa balsa no Tamisa em pleno jubileu de ouro da rainha Elizabeth II, levando porrada da polícia ao som de Nevermind the Bullocks.

Além disso, conhecer os caras do The Clash quando não tinham dinheiro para comprar as passagens de volta para a casa, perguntar ao George Michael se ele de fato é um babaca, conversar sobre propaganda nazista com David Bowie, chamar a Kylie Minogue de “copo de leite desnatado” e tomar suco de laranja com Billy Idol é apenas um exemplo do que se encontra entre as célebres matérias de “Disparos do Front da Cultura Pop” – coletânea que reúne os melhores textos de Parsons para New Musical Express, Daily Mirror, Telegraph, etc.

Humor ácido e sutil ironia permeiam as opiniões e críticas de Parsons não apenas sobre música, mas também sobre a classe média inglesa (“a selva de polenta”), a classe operária (“a selva tatuada”), os mendigos de Londres e as fanzocas fáceis que acompanham os roqueiros.

Mas não se engane, Parsons não é um liberal pacífico e culto como a maioria dos colunistas ingleses, pelo contrário, é um conservador ferrenho. Para ele, por exemplo, mulheres bêbadas são indignas de atenção ou tratamento educado, a música ambiente é uma praga inventada por Brian Eno quando sua vitrola não funcionava e os hippies de hoje não são hippies são babacas que acreditam em vida extraterrestre e o poder curativo dos cristais.

Parsons: camarada dos Pistols

Parsons: camarada dos Pistols

Minha dica para quem se interessar é que não deixe de ler as reportagens sobre suas viagens para o Japão, União Soviética, Chicago, Houston e outras localidades. Uma visão distante e tipicamente inglesa das excentricidades comportamentais e culturais de diferentes povos, que para Parsons não poderiam – por mais remotos que fossem – estar livres da futilidade que é a cultura pop.

Who got talent? – Democracia e graffiti

09/09/2009
Graffiti de Banksy na cidade de Belém, na Cisjordânida. Vc apagaria este?

Graffiti de Banksy na cidade de Belém, na Cisjordânida. Vc apagaria este?

O Conselho Municipal de Bristol, na Inglaterra, pretende revolucionar os conceitos da arte de rua, colocando em referendo para os seus cidadãos a decisão de quais obras de graffiti devem ficar e quais devem ser apagadas dos espaços públicos. Como coloca o jornalista Florence Waters do Telegraph, é uma tentativa de implantar um sistema semelhante ao Britain’s Got Talent – o Ídolos inglês – na política pública para o graffiti.

Acredita-se que um pacto social como esse, entre Estado e artistas que tem a rua como estúdio de criação, promoveria amplamente a democratização do graffiti, entregando-lhes a decisão do que vale a pena ser mantido ou não nos muros da cidade. O objetivo é elevar o status dessa arte entre as parcelas da população que ainda vê o graffiti como uma manifestação invasiva, ilegal e de degradação urbana. Um modelo que poderia ser copiado em São Paulo, onde espaço e talento não faltam.

Mas a história de Bristol com o graffitti não é recente. Banksy, tido como um dos artistas mais influentes do graffiti mundial, é um orgulhoso filho destas terras civilizadas e coloridas pelo spray. Em referendo, seu índice de aprovação entre os moradores, segundo o Telegraph, é de 93% e sua exposição individual no Bristol Museum quebrou recordes de público, sendo a mais vista na Inglaterra em 2009. Os cidadãos fazem um provocativo convite àqueles que querem impressionar como Banksy: “Vamos ver o quanto sua arte é boa mesmo”.

Al Capone – Filmed with Bullet Force

08/09/2009
Cartaz para a estréia francesa de "Al Capone"

Cartaz para a estréia francesa de "Al Capone"

“As pessoas não respeitam nada hoje em dia. Houve um tempo em que a virtude, a honra, a verdade e a lei eram colocadas em um pedestal. Nossos filhos eram educados para respeitar certas coisas” Al Capone para o Liberty em outubro de 1931.

O comentário acima não seria de modo algum estranho se saísse da boca de algum político ou jornalista conservador como Bill O’Reilly ou Sean Hannity, mas como provem de um dos ícones máximos do gangsterismo, é no mínimo irônico. E o midiático Al Capone foi a ironia em pessoa no seu tempo de vida. Ignorante e administrador visionário, fora-da-lei e defensor da honra, democrático e, ainda assim, pró-Mussolini. Mais que um homem, um personagem pronto para ser copiado.

E como foi copiado, desde “Scarface – The Shame of a Nation” (1932) por Howard Hawks até “Os Intocáveis”(1987) por Brian de Palma. Mas nem Paul Muni para os mais puristas – que de personagem o seu nem Capone da gema era, e sim Tony Camonte – nem Robert Niro para os meus contemporâneos, poderiam ser comparados com a célebre atuação de Rod Steiger em “Al Capone” (1959) de Richard Wilson.

Steiger fez justiça a chamada publicitária que lançou o filme naquele começo de outono: “His True Shocking Story…Filmed with Bullet Force!”. Pobre Fay Spain, com quem Steiger divide as cenas de maior intensidade emocional, é “apagada” com a brutalidade de uma semi-automática que dispara frases de duplo sentido e sorrisos vencedores. “Típico das raças latinas”, como diria o jornalista Cornelius Vanderbilt em sua famosa entrevista com o próprio César da Chicago de 1930.

Rod Steiger

Rod Steiger

Contudo, e apesar da romantização que se faz de uma figura tal como Al Capone, Steiger ressalta na sua interpretação que suas políticas de Wellfare – antes mesmo do New Deal de F.D.Roosevelt – como dar abrigo e sopa aos pobres, era apenas uma estratégia para fortalecê-lo perante os muitos inimigos e conquistar a simpatia da população bêbada de whisky contrabandeado do Canadá. Naquela época se podia dizer que nem o próprio presidente Hoover era mais popular que o homem da cicatriz.

Steiger é da categoria de um Marlon Brandon no poder de seu carisma e força no papel de Al Capone. Brutalizado pelo meio, engraçado e bonachão. Um gênio dos negócios que nasceu do lado errado dos trilhos, mas no momento certo.

Escutadinhas frequentes – Talking Heads

23/08/2009
pixies

Pixies

Bandas criadas entre gerações distintas e marcantes da música apresentam no seu som diferentes e confluentes expressões e influências. Indefiníveis por natureza, algumas são catalogadas entre o new wave, o post-punk e o art rock. Por exemplo, The Pixies, uma das bandas mais criativas da geração pós-80 chegou a mesclar punk, ska, pop e funk em suas composições mais conhecidas como Hey, Digging for Fire e Levitate Me.

Enquanto The Pixies se encontrou entre o fim do punk e o início do grunge. The Talking Heads, tema principal deste post, apareceu em uma época na qual o punk ainda não caminhava em pé e não tinha uma cultura própria além da casa CBGB.  Inicialmente sob o nome de The Artistics em Rhode Island, a banda era liderada pelo místico showman David Byrne, contava com Chris Frantz na bateria e sua namorada Tina Weymouth no baixo, além de Jerry Harrison nos teclados. Quando já se chamavam Talking Heads em 1975 seu primeiro trabalho foi abrir para o Ramones. Coisa pouca para quem apenas começava, não?

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Talking Heads

Sob a tutela Brian Eno a partir do segundo álbum,  produtor do Roxy Music e David Bowie, lançaram More Songs About Buildings and Food (1978), Fear of Music (1979) e Remain in Light (1980). Talvez Eno seja o grande responsável pela direção tomada pela banda então e a incorporação de diversos elementos musicais. O Talking Heads trafegou pelo punk e o art rock, claro, mas também fez paradas entre o pop e o new wave, o que garantiu seu sucesso entre o público e a crítica. Hits deles em ordem e que comprovam essas passagens são Psycho Killer, Burning Down The House, Sugar on My Tongue e Road to Nowhere.

Quatro de seus álbuns estão entre os 500 maiores álbuns da história da música segundo a revista Rolling Stone.

Operación Pandemia

18/08/2009

O vídeo Operação Pandemia de Joaquín Arrieta é o novo hit conspiratório do Youtube e pode até ser tachado de sensacionalista. Ele não afirma e nem confirma substancialmente, apenas deixa implicito na apresentação plausível de fatos: as gripes suína e aviária são uma invenção do marketing das empresas de remédios para vender mais produtos.

Claro que não, certo? Pois não é nada suspeito Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa do primeiro governo Bush – o homem que invadiu o Iraque, vendeu e terceirizou toda uma guerra, dos soldados aos seus zippos – ser também um alto executivo encarregado das estratégias da Gilead Sciences a dona da patente do Tamiflu, remédio distribuído pela farmacêutica Roche e altamente recomendado no tratamento contra as gripes aviária(H5N1) e suína (H1N1).

Apesar de ele estar lucrando absurdamente com a valorização das ações da empresa, deve ser coincidência, óbvio. Não existe tal coisa como gênios do mal. Mas a sensação de que qualquer coisa que tenha Rumsfeld, Cheney e Bush envolvidos não cheira bem, pelo menos é real. Nada mal para um projeto portenho de Michael Moore.


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