Archive for junho \25\UTC 2009

25 de junho, um dia que não acabou…ainda

25/06/2009
Oiticica: Estranheza no que parece certo

Oiticica: Estranheza no que parece certo

No meu orkut no dia 25 de junho de 2009

“Sorte de hoje: Estude como se você fosse viver para sempre. Viva como se você fosse morrer amanhã”

Há dias como este, que ainda não acabou, em que o sentimento do mundo parece “torto”. Um caos controlado como uma composição de quadrados de Hélio Oiticica, incomodando a minha visão, desconfortando a minha alma, extravasando alguma energia negativa que só os mais sensíveis parecem sentir no ar, como um cheiro ou um zumbido no ouvido.

Acordei hoje e me preocupei em realizar todas as minhas tarefas para a semana de provas da Cásper Líbero e  até às 15h tudo seguia o seu rumo aos trancos e barrancos.

1.Recebo um e-mail de uma amiga que aqui transcrevo:

“Oi, pessoal!
Tudo bem?
Tive, hoje, a confirmação de que peguei gripe suína.  Recebi várias instruções da Vigilância Epistemológica e gostaria de avisar a todos vocês que tiveram contato comigo nesta segunda-feira o seguinte:
Se alguém apresentar sintomas como febre, tosse, dores no corpo, de cabeça ou nos olhos, é importante que se dirija ao Emílio Ribas, na Av. Dr. Arnaldo, para fazer o exame, informando que teve contato com uma pessoa confirmada. O exame é simples (suabnasal), o resultado sai em 48 horas e a medicação é fornecida por eles.
Em caso de suspeita forte, serão recomendados 10 dias de isolamento.
Ok?
Espero que todos estejam bem!
abraços (de longe) sem beijos”
Claro que na segunda feira dividi uma latinha de coca com essa mesma menina. E agora posso ter gripe suína, ótimo! Minhã mãe ainda não sabe mas já saiu na Folha de São Paulo. E Nesse fim de semana tenho um programa agendado: Turismo no Emílio Ribas.
Logo, um comunicado da faculdade. Férias antecipadas e os trabalhos que fiz para hoje ficam para o mês que vem. Mas o que mais me incomoda é ela ter escrito “epistemológica” e não “epidemológica”. Se existe a tal vigilancia epistemológica é para assegurar que todos os cidadãos estão cientes dos avanços na teoria do conhecimento e nos trabalhos filosóficos que se referem às categorias mentais e os processos funcionais do pensamento. Ainda bem, porque não suporto quem não entende de metafísica neo-kantiana. Agora sim, me sinto mais seguro.
 
 

Caso morra como serei lembrado? Por esse post ou por ser um rapaz bonito?

2. A Morte de Michael Jackson, 50

Michael Jackson’s heart…Beat it, beat it! And then beat it no more. E no mesmo dia em que morreu a Farrah Fawcett, 62. Tamanha a comoção que o Twitter pediu “pára o mundo que eu quero descer”: Twitter is over capacity. Too many tweets! Please wait a moment and try again.

A primeira coisa que fez quando chegou no céu foi perguntar: E o menino Jesus, cadê?

 

E como será lembrado? Como inventor do moonwalk ou monstro do armário?
3. Gugu foi para Record

Para alguns parece que os anos 80 acabaram hoje.
Como será lembrado? Entrevista falsa com o PCC ou salário mensal de 3 milhões de reais?

 

A Coruja de Minerva

22/06/2009
Contra a Guerra do Vietnã: Jan Rose Jasmir em 1966

Contra a Guerra do Vietnã: Jan Rose Jasmir em 1966

“Os mais humanos não fazem a revolução. Eles fazem bibliotecas.” Jean-Luc Godard, cineasta e crítico

Caso 1

Há 45 dias a Universidade de São Paulo está em greve. Como fruta da estação, sempre no mês de maio, funcionários, professores e alunos da instituição param suas atividades para discutir verbas, políticas e ideologias. Na pauta de reivindicações deste ano estão reajustes salariais, abertura de cursos a distancia e a readmissão de um funcionário, Claudionor Brandão, afastado, inclusive, por assédio sexual. Aparentemente, elementos que não seriam o suficiente para fazer de um símbolo do ensino superior brasileiro um cenário de presídio rebelado, como o que foi visto pela televisão no último dia 9.

Mas a combinação do poder de mobilização de um líder sindical que só poderia ser Claudionor Brandão, uma reitoria indisposta para as negociações e a presença de uma força policial violenta que nunca entendeu direito o conceito de “autonomia universitária” só poderia resultar no que se viu, ou seja, em gente que ganha pouco batendo em gente que ganha menos ainda. Um vexame das autoridades que revestiu de legitimação a greve que parou as aulas na maioria dos cursos da USP.

No poema “De quem a Culpa?” de Victor Hugo, alguém pergunta indignado ao incendiário de uma biblioteca porque cometera um crime tão infame contra a razão, a tolerância, enfim, os valores mais nobres de nossa humanidade.  O culpado responde em um tom que não se pode distinguir entre a vergonha e o orgulho: “Eu não sei ler!”.

Dessa mesma maneira, responde a polícia militar quando bate na torcida, bate no menor de rua, bate no estudante e no professor da USP. Para o policial militar mal treinado, mal pago e sem paciência para as reclamações dos “filhinhos de papai” da universidade, só existe o dever a ser cumprido. Mesmo com flores no cano do fuzil ele atiraria em Jan Kasmir se assim ordenassem.

Se antes havia estudantes e professores contra a greve, perceptivelmente em maior número, não se pode dizer isso depois das bombas de efeito moral, das lágrimas e das balas de borracha.

Caso 2

Situação similar a da USP hoje, vive um país como o Irã nesta semana, que saiu às ruas para protestar contra uma eleição decidida nas cúpulas dos aiatolás e só precisou do povo para parecer justa aos olhos dos estrangeiros.

O povo quer um moderado como Mousavi, já os líderes querem Ahmadinejad, alguém capaz de entregar a mensagem de ordem e fundamentalismo islâmico para a nação e para o mundo. Lá, a polícia, em termos de tratamento dos civis, é como a nossa. Assim, uma pessoa morreu, várias ficaram feridas e muitos foram presos.

Nos dois casos foi preciso que a biblioteca fosse queimada para despertar a indignação. Na USP para se lembrar como as coisas são no final das contas e, no Irã, para entender que se pode escolher a liberdade. Kant estava certo quando escreveu que a coruja de Minerva, deusa da sabedoria, só alça vôo quando é tarde demais, sempre ao anoitecer.