A Coruja de Minerva

Contra a Guerra do Vietnã: Jan Rose Jasmir em 1966

Contra a Guerra do Vietnã: Jan Rose Jasmir em 1966

“Os mais humanos não fazem a revolução. Eles fazem bibliotecas.” Jean-Luc Godard, cineasta e crítico

Caso 1

Há 45 dias a Universidade de São Paulo está em greve. Como fruta da estação, sempre no mês de maio, funcionários, professores e alunos da instituição param suas atividades para discutir verbas, políticas e ideologias. Na pauta de reivindicações deste ano estão reajustes salariais, abertura de cursos a distancia e a readmissão de um funcionário, Claudionor Brandão, afastado, inclusive, por assédio sexual. Aparentemente, elementos que não seriam o suficiente para fazer de um símbolo do ensino superior brasileiro um cenário de presídio rebelado, como o que foi visto pela televisão no último dia 9.

Mas a combinação do poder de mobilização de um líder sindical que só poderia ser Claudionor Brandão, uma reitoria indisposta para as negociações e a presença de uma força policial violenta que nunca entendeu direito o conceito de “autonomia universitária” só poderia resultar no que se viu, ou seja, em gente que ganha pouco batendo em gente que ganha menos ainda. Um vexame das autoridades que revestiu de legitimação a greve que parou as aulas na maioria dos cursos da USP.

No poema “De quem a Culpa?” de Victor Hugo, alguém pergunta indignado ao incendiário de uma biblioteca porque cometera um crime tão infame contra a razão, a tolerância, enfim, os valores mais nobres de nossa humanidade.  O culpado responde em um tom que não se pode distinguir entre a vergonha e o orgulho: “Eu não sei ler!”.

Dessa mesma maneira, responde a polícia militar quando bate na torcida, bate no menor de rua, bate no estudante e no professor da USP. Para o policial militar mal treinado, mal pago e sem paciência para as reclamações dos “filhinhos de papai” da universidade, só existe o dever a ser cumprido. Mesmo com flores no cano do fuzil ele atiraria em Jan Kasmir se assim ordenassem.

Se antes havia estudantes e professores contra a greve, perceptivelmente em maior número, não se pode dizer isso depois das bombas de efeito moral, das lágrimas e das balas de borracha.

Caso 2

Situação similar a da USP hoje, vive um país como o Irã nesta semana, que saiu às ruas para protestar contra uma eleição decidida nas cúpulas dos aiatolás e só precisou do povo para parecer justa aos olhos dos estrangeiros.

O povo quer um moderado como Mousavi, já os líderes querem Ahmadinejad, alguém capaz de entregar a mensagem de ordem e fundamentalismo islâmico para a nação e para o mundo. Lá, a polícia, em termos de tratamento dos civis, é como a nossa. Assim, uma pessoa morreu, várias ficaram feridas e muitos foram presos.

Nos dois casos foi preciso que a biblioteca fosse queimada para despertar a indignação. Na USP para se lembrar como as coisas são no final das contas e, no Irã, para entender que se pode escolher a liberdade. Kant estava certo quando escreveu que a coruja de Minerva, deusa da sabedoria, só alça vôo quando é tarde demais, sempre ao anoitecer.

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Uma resposta to “A Coruja de Minerva”

  1. Natália Says:

    Non ducor, duco.

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