Archive for agosto \23\UTC 2009

Escutadinhas frequentes – Talking Heads

23/08/2009
pixies

Pixies

Bandas criadas entre gerações distintas e marcantes da música apresentam no seu som diferentes e confluentes expressões e influências. Indefiníveis por natureza, algumas são catalogadas entre o new wave, o post-punk e o art rock. Por exemplo, The Pixies, uma das bandas mais criativas da geração pós-80 chegou a mesclar punk, ska, pop e funk em suas composições mais conhecidas como Hey, Digging for Fire e Levitate Me.

Enquanto The Pixies se encontrou entre o fim do punk e o início do grunge. The Talking Heads, tema principal deste post, apareceu em uma época na qual o punk ainda não caminhava em pé e não tinha uma cultura própria além da casa CBGB.  Inicialmente sob o nome de The Artistics em Rhode Island, a banda era liderada pelo místico showman David Byrne, contava com Chris Frantz na bateria e sua namorada Tina Weymouth no baixo, além de Jerry Harrison nos teclados. Quando já se chamavam Talking Heads em 1975 seu primeiro trabalho foi abrir para o Ramones. Coisa pouca para quem apenas começava, não?

talking-heads.jpeg

Talking Heads

Sob a tutela Brian Eno a partir do segundo álbum,  produtor do Roxy Music e David Bowie, lançaram More Songs About Buildings and Food (1978), Fear of Music (1979) e Remain in Light (1980). Talvez Eno seja o grande responsável pela direção tomada pela banda então e a incorporação de diversos elementos musicais. O Talking Heads trafegou pelo punk e o art rock, claro, mas também fez paradas entre o pop e o new wave, o que garantiu seu sucesso entre o público e a crítica. Hits deles em ordem e que comprovam essas passagens são Psycho Killer, Burning Down The House, Sugar on My Tongue e Road to Nowhere.

Quatro de seus álbuns estão entre os 500 maiores álbuns da história da música segundo a revista Rolling Stone.

Anúncios

Operación Pandemia

18/08/2009

O vídeo Operação Pandemia de Joaquín Arrieta é o novo hit conspiratório do Youtube e pode até ser tachado de sensacionalista. Ele não afirma e nem confirma substancialmente, apenas deixa implicito na apresentação plausível de fatos: as gripes suína e aviária são uma invenção do marketing das empresas de remédios para vender mais produtos.

Claro que não, certo? Pois não é nada suspeito Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa do primeiro governo Bush – o homem que invadiu o Iraque, vendeu e terceirizou toda uma guerra, dos soldados aos seus zippos – ser também um alto executivo encarregado das estratégias da Gilead Sciences a dona da patente do Tamiflu, remédio distribuído pela farmacêutica Roche e altamente recomendado no tratamento contra as gripes aviária(H5N1) e suína (H1N1).

Apesar de ele estar lucrando absurdamente com a valorização das ações da empresa, deve ser coincidência, óbvio. Não existe tal coisa como gênios do mal. Mas a sensação de que qualquer coisa que tenha Rumsfeld, Cheney e Bush envolvidos não cheira bem, pelo menos é real. Nada mal para um projeto portenho de Michael Moore.

Lembraça de um garoto esquecido

13/08/2009

Perfil de um maduro Chuck Hipolitho, ex vocalista e guitarrista dos Forgotten Boys

chuck_01

Encontrei Chuck Hipolitho, 29 anos, com seus cabelos rebeldes na altura dos ombros, vestindo slim jeans e uma camiseta que facilitava a plena visão das orgulhosas tatuagens que possui. No braço esquerdo, chamas e estrelas em vermelho e amarelo. No direito, em verde, uma cobra que se entrelaça no nome de sua banda, os Forgotten Boys.

Chuck acabara de voltar do dentista e esperava pacientemente enquanto lia e relia o cardápio de um café na Vila Madalena, bairro onde reside na zona oeste de São Paulo. E ao contrário do que se possa esperar de um rock star e seu típico lifestyle, ele pede um pudim e um cafézinho.

Sou recebido com um forte e confiante aperto de mão – o sinal de bom caráter que me confirmou sua fama de simpático bom moço, e da qual ele faz digna justiça. A situação pode soar contraditória na dialética que faz do rock também imagem, contudo, com Chuck adquire surpreendente normalidade. “Quem o conhece, o compra. E essa escolha na maioria das vezes é unânime”, ressalta Rene, primo e um dos melhores amigos do músico. De fato, o vocalista e guitarrista dos Forgotten Boys guarda muito do menino de Pirassununga e da criação que dona Maria e seu pai militar, Pedro Humberto, lhe deram.

Para tentar quebrar o gelo inicial de toda entrevista, digo que ele é um dos principais culpados por terem me convencido a comprar um álbum do Supla, na época em que dirigiu “Os Piores Clipes do Mundo”, programa de televisão apresentado por Marcos Mion na MTV. Mas difícil era encontrar qualquer colega da sétima série que também não o tivesse. Ele mesmo não sabe o quanto é de fato culpado pela influência do programa no público adolescente. Porém, admite sem remorsos que foi o primeiro a fazer a mascote punk de João Gordo, o Fudêncio, falar. “Era tudo muito ‘tosco’, e eu precisava fazer o bonequinho falar, saiu o ‘mimimi’”, defende-se o réu. Conclusão, hoje Fudêncio tem um desenho só seu no canal.

Vale ressaltar que entrou na MTV como estagiário no primeiro ano da faculdade de Publicidade e Propaganda e saiu como lenda da programação do canal que lhe deu até o apelido. Começou por lá com o nome de batismo, Eduardo, mas decidiu pintar o cabelo de vermelho para a alegria do piadista de plantão que encontrou logo a referência cômica. “Lá vai o ‘Chuck’, o boneco assassino”.

Forgotten, but cool, anyway…

Em 1999, foi apresentado por um amigo e integrou os Forgotten Boys para substituir Fernando Ramone (sem o parentesco óbvio), largando a bateria e migrando para a guitarra. A banda na época contava com Arthur Franquini (bateria) e Gustavo Riviera (guitarra e voz) e tinha o que Chuck procurava, uma banda que pudesse responder com um bom rock à invasão do axé e dos pagodeiros na década de 1990. Criaram um som embasado nos anos 60 e 70, com pegadas de The Stooges e Ramones, que se tornou muito apreciado por um fiel público que os acompanha na noite paulistana.

Não pretendem ser, mas são considerados o que não conseguiram ser antes por falta de divulgação, uma alternativa ao que contamina as rádios. Para Chuck o importante é ser independente na criação e capaz de fazer rock que seja bom para ele mesmo. O resto é bula para os críticos que procuram remédio para o rock nacional.

Forgotten Boys - Gimme More... and More (2004)

A banda ainda que longe das rádios, não é desconhecida, possui fãs que não perdem a chance de lotar as casas de shows. E se há algum problema – por falta de palavra melhor – é a escolha da banda pelo rock em inglês. “O ritmo do português não combina com o nosso som. Acho que soariam bobas se não fossem em inglês”, Chuck afirma decididamente. Mas, convém dizer que isso é parte da relutância das rádios, pois o público está desacostumado com a idéia de um bom rock gringo ser 100% brasileiro.

Na Argentina, Uruguai, ou EUA, o publico é mais receptivo. “Lá as pessoas são mais informadas, você vê as pessoas lendo livros nos cafés. É outro padrão intelectual”, comenta Chuck. No entanto, as faixas em português como “Não Vou Ficar” e “Blá Blá Blá” do álbum “Stand By The D.A.N.C.E” são aceitas com gratidão pelo público, apesar de parecerem mais pop. “Claro, pode ser uma tendência, no próximo álbum haverão outras mais”, conta quando indagado sobre futuros projetos na língua dos Mutantes.

A missão em andamento

Sobre a sua infância, basta dizer que usou aparelho dos 8 aos 13 anos. Mas há algo mais interessante para saber do que a experiência corretiva no ortodontista. A família conta que Chuck foi uma criança prodígio, quando interessado em algo procurava aprender o máximo possível a respeito. “Eu não diria ‘prodígio’, mas fui uma criança cheia de manias, encanava com o que me interessava”, responde com modéstia. Teve manias como desenhar, montar réplicas de veículos em miniatura, colecionar pôsteres de aviões, aprender a mexer com eletrônica, consertar rádios…

Mas de todas as suas empreitadas compulsivas pelas coisas que despertavam sua curiosidade, a mais famosa e comentada pela família é a paixão por peixes e aquários. Tinha em seu quarto diversos aquários com variados peixes que estudava. Tamanha a fixação, lia livros sobre o assunto e mantinha diários sobre o comportamento e a reprodução das criaturas. Pensou seriamente em se tornar biólogo e até hoje lembra os nomes científicos dos peixes que criava, mas não consegue manter um aquário por causa da falta de tempo entre ensaios, compromissos e viagens.

Em analogia, pode-se dizer que suas manias são o reflexo de outra faceta de sua personalidade. Está sempre disposto a aprender, a conhecer tudo o que pode enquanto pode não se dando por satisfeito. Quando lhe pergunto qual seu filme favorito, por exemplo, ele me responde que é “Apocalipse Now” de Francis Ford Coppola, e a razão da preferência ele explica: “Porque fala sobre concluir um objetivo. Ter uma missão e cumpri-la”, resume.

As novas e a maior mania

A música, a maior de todas as suas “manias”, começou como curiosidade que virou paixão pelo rock. “Quando tinha uns 12, 13 anos de idade, ganhei dos amigos uma fita gravada com músicas do Nirvana, Sepultura, Guns’n’Roses… Naquela época, só assim para as coisas chegarem até a gente em Pirassununga. Bem diferente de hoje, quando toda casa tem MTV e acesso ao MySpace”, explica.

E do amor à primeira “escutada” pela música, veio a vontade de aprender a fazer o próprio som. Autodidata em tudo que sabe sobre música, aprendeu a tocar bateria para acompanhar os Ramones. Não fez mal na frente dos punks nova-iorquinos quando em 2003 os Forgotten Boys abriram o show de Marky Ramones, mas então tocava guitarra. “Acho que toco bateria melhor do que guitarra. Comecei nisso.”, admite Chuck, ressaltando seu amor pelo instrumento de Ringo, claro, seu beatle favorito.

A música junta à habilidade para a televisão só poderia resultar no clipe, e Chuck além de criticá-los sabe fazê-los, tanto que em 2003 concorreu com os Forgotten Boys por melhor clipe independente no VMB. “Passava o dia vendo Akira e escutando música, viajava ao perceber como a música combinava certinho com o que acontecia na tela”, relata.

Na verdade ele não se satisfez apenas com a produção, ou a direção, como prova o curta-metragem “5 Mentiras” (referencia à música de mesmo nome), dirigido por Thomas Hale. Precisava se arriscar como ator também para se sentir completo. No seu primeiro papel interpretou um fã que não tem ingressos para o show da banda favorita. Sem problemas, quando se sabe que Chuck teve ajuda da esposa, nada menos que uma das jovens atrizes mais prestigiadas do país, Débora Falabella.

E nesse quesito, o assédio da imprensa no seu casamento não parece preocupá-lo e ele o considera tolerável. “Só castelo fraco precisa de muro para se proteger. Nós confiamos um no outro e crescemos juntos”, diz um maduro Chuck antes dos 30. O motivo da atração e do sucesso ele mesmo ainda busca entender mas explica com convicção:“Pessoas apaixonadas pelo que fazem são pessoas apaixonantes”.