Archive for the ‘Cinema’ Category

Al Capone – Filmed with Bullet Force

08/09/2009
Cartaz para a estréia francesa de "Al Capone"

Cartaz para a estréia francesa de "Al Capone"

“As pessoas não respeitam nada hoje em dia. Houve um tempo em que a virtude, a honra, a verdade e a lei eram colocadas em um pedestal. Nossos filhos eram educados para respeitar certas coisas” Al Capone para o Liberty em outubro de 1931.

O comentário acima não seria de modo algum estranho se saísse da boca de algum político ou jornalista conservador como Bill O’Reilly ou Sean Hannity, mas como provem de um dos ícones máximos do gangsterismo, é no mínimo irônico. E o midiático Al Capone foi a ironia em pessoa no seu tempo de vida. Ignorante e administrador visionário, fora-da-lei e defensor da honra, democrático e, ainda assim, pró-Mussolini. Mais que um homem, um personagem pronto para ser copiado.

E como foi copiado, desde “Scarface – The Shame of a Nation” (1932) por Howard Hawks até “Os Intocáveis”(1987) por Brian de Palma. Mas nem Paul Muni para os mais puristas – que de personagem o seu nem Capone da gema era, e sim Tony Camonte – nem Robert Niro para os meus contemporâneos, poderiam ser comparados com a célebre atuação de Rod Steiger em “Al Capone” (1959) de Richard Wilson.

Steiger fez justiça a chamada publicitária que lançou o filme naquele começo de outono: “His True Shocking Story…Filmed with Bullet Force!”. Pobre Fay Spain, com quem Steiger divide as cenas de maior intensidade emocional, é “apagada” com a brutalidade de uma semi-automática que dispara frases de duplo sentido e sorrisos vencedores. “Típico das raças latinas”, como diria o jornalista Cornelius Vanderbilt em sua famosa entrevista com o próprio César da Chicago de 1930.

Rod Steiger

Rod Steiger

Contudo, e apesar da romantização que se faz de uma figura tal como Al Capone, Steiger ressalta na sua interpretação que suas políticas de Wellfare – antes mesmo do New Deal de F.D.Roosevelt – como dar abrigo e sopa aos pobres, era apenas uma estratégia para fortalecê-lo perante os muitos inimigos e conquistar a simpatia da população bêbada de whisky contrabandeado do Canadá. Naquela época se podia dizer que nem o próprio presidente Hoover era mais popular que o homem da cicatriz.

Steiger é da categoria de um Marlon Brandon no poder de seu carisma e força no papel de Al Capone. Brutalizado pelo meio, engraçado e bonachão. Um gênio dos negócios que nasceu do lado errado dos trilhos, mas no momento certo.

Gump 2 in Tender is the Night

22/01/2009

Minha primeira impressão sobre “O Curioso Caso de Benjamin Button” foi de um filme impecável em todos os aspectos, interessante e divertido. Levantei da cadeira um fã da atuação da maquiagem de Brad Pitt. Mas conforme caminhava em direção a saída, não pude deixar de comentar a sensação de que já havia visto aquilo antes.

As palavras seguintes saíram com naturalidade: “Porra, até parece Forest Gump”. Eu sei que não fui único a pensar justamente nisso. Mas vou salientar algumas semelhanças.

1. Tanto Gump (Tom Hanks) quanto Button (Brad Pitt) são do sul dos EUA, tem sotaques parecidos e dizem “Mamaaa” do mesmo jeito anasalado;

2. Ambos possuem uma condição que limita seu relacionamento com outras pessoas, mas não os impede de desbravar o mundo e desenvolver seu potencial. Gump é deficiente mental, mas conhece alguns presidentes e John Lennon. Button tem setenta anos aos 17 e vive também a efervescência cultural de seu tempo;

3. Nos filmes, os dois tem dificuldade para caminhar. Gump usa muletas assim como Button e depois com um empurrão do destino deixam-nas de lado;

4. Nos filmes de David Fintcher e Ron Howard, os protagonistas passam parte de sua jornada em barcos: Gump pesca camarão e Button faz parte da tripulação de um rebocador.;

5. Os dois vivem guerras e perdem seus melhores amigos nelas. Gump perde Bubba (camarão com queijo, camarão no espeto, pastel de camarão) no Vietnam. Button perde o capitão do navio na Segunda Grande Guerra. Ambos aprendem algum significado de vida com seus amigos, como viver ao máximo e coisa do tipo.;

6. Gump e Button enriquecem rapidamente e com sorte de uma gente iluminada por Deus, de fato. Gump porque investiu o dinheiro do camarão numa tal de Apple – uma companhia que vende frutas, creio – e Button porque seu pai milionário reaparece e lhe deixa uma fábrica de botões (negócio atraente!);

7. Os pares românticos são conhecidos desde a infância pelos protagonistas dos filmes. Essas personagens são espirituosas, rebeldes e aventureiras, além de inspirarem as ditas ilíadas dos filmes.

The Curious Case of Forrest Gump

A diferença reside na qualidade do texto. Afinal “O Curioso Caso” vem de um conto de F. Scott Fitzgerald, tudo que cerca as personagens é um símbolo de ostentação, poder, luxo e acesso. Uma viagem a Paris é um pulinho para um americano rico e bonito. A essência de Fitzgerald, além de ter captado o zeitgeist de sua geração dourada, é de ter feito de sua obra um manual do estilo e do bom gosto. Por enquanto só li “Suave é a Noite” e “O Grande Gatsby”. Não tenho autoridade para falar muito mais que isso, mas o verão é longo e quente como em Cannes. Lendo, já me sinto um Dick Diver, elegante e charmoso, entre estrelas do cinema, casais ricos e pintores.