Archive for the ‘Jornalismo’ Category

Brincando de Larry King

05/01/2011

King - 1000 anos de entrevistas

Algumas entrevistas que fiz para a Época em 2010 fizeram mais sucesso que outras. E uma coisa ficou óbvia, nem sempre o interesse jornalístico combina com o interesse do leitor. Por isso, seguem as mais importantes dos últimos 3 meses.

A que fiz com Joe Jackson foi marcante. A cada hora que passava ela ficava melhor e mais importante. Começou com um ping-pong na livraria Saraiva do Shopping Eldorado e terminou com um jantar no Figueira Rubaiyat.

Com Matthew Lewis da série Harry Potter ficou um convite no ar para jogar Fifa no Xbox.

A entrevista com Peter Hunt foi uma aula extracurricular, assim como a entrevista do Cid Moreira que naquele dia da entrevista teve 3 assuntos no seu Twitter: Os Salmos, Jesus e Julio Lamas.

Foi gostoso brincar de Larry King, mas chega de Época agora. O próximo post será uma exclusividade do Notas.

Entrevista com o especialista em Literatura Infantil Peter Hunt sobre o sucesso da série Harry Potter

Entrevista com o ator Matthew Lewis, o Neville Longbottom na versão de Harry Potter para os cinemas

Entrevista com Joe Jackson (pai de Michael Jackson) no lançamento do livro ‘O que realmente aconteceu a Michael Jackson’ de Leonard Rowe

Entrevista com Cid Moreira

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Entrevista – Rui Amaral

02/01/2011

Galera fã do NOTAS (oi pai, oi mãe!) segue uma entrevista minha com o artista Rui Amaral que estava na gaveta faz muito tempo. Foi feita em 2008 quando eu ainda estava pensando em fazer um documentário sobre graffiti. Em 2010, esse documentário virou realidade e é o “Graffiti – Arte Bruta”, um projeto produzido por mim, Felipe Gomide e Raphael Sassaki. Vou colocar aqui um link para dowload assim que puder.

Tenho que pedir desculpas a mim mesmo e a qualquer leitor ocasional (oi meninas que me acham bonitinho e tiveram curiosidade!) que por aqui passou em 2010, acreditando na promessa de frequêcia maior de posts feita ano no ano passado. Fiquei um ano sem postar, pois estava ocupado trabalhando no “Graffiti- Arte Bruta” e vendendo o talento para a revista Época – a segunda maior revista semanal do país. Por lá, trabalhei com o Juliano Machado na editoria de Internacional, com Paulo Moreira Leite (lenda viva!) na coluna “Vamos Combinar” e com Luís Antônio Giron na editoria de Cultura. Com todos aprendi muito, mas ainda guardo a impressão de que poderia ter feito mais. “Quando Neymar quer jogar, não falta ‘Dorivais’ para barrar”, um amigo uma vez me disse.

Tenho ótimas entrevistas desse período na Época. Vou postar algumas assim que o período de quarentena acabar.

2011 que venha…vou recompensar pelo tempo perdido e continuar a pagar os juros do tempo ganho.

 

Graffiti de Rui Amaral no "Buraco da Paulista"

Rui Amaral – Graffiti e Pixação, linguagem urbana

Considerado um dos mais influentes artistas do graffiti no Brasil, o multimidiático Rui Amaral integra o panteão da primeira geração da arte urbana em São Paulo, surgida no fim da década de 1970. Um criador inquieto e versátil, ele explorou diversas plataformas como a animação, a toy art e a produção de vídeos.

Formado pela FAAP em Artes Plásticas, Amaral teve exposição de seu trabalho na Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAC, MIS, Funarte e MAP, além de possuir obras suas no acervo do MASP.

Diretor-geral da agência Artbr (www.artbr.com.br), já realizou projetos de design gráfico, animação e produção de arte multimídia em parceria com a Rede Globo, Rede Bandeirantes de Televisão, o jornal O Estado de São Paulo, StarMedia, Nestlé, Instituto Sócio Ambiental, Swatch, entre outros. Trabalhou também na criação de sites para as agencias de publicidade DM9 e O2. Além disso, é responsável por workshops e oficinas de graffiti e intervenção urbana.

Suas obras pós-modernas, que remetem ao universo da imaginação infantil e da modernidade urbana, podem ser encontradas em diversos pontos da cidade, como a que está no “Buraco da Paulista” – túnel que liga a Avenida Doutor Arnaldo à Avenida Paulista – e foi tombada como patrimônio artístico pelo Estado. “A excelente qualidade da produção pessoal de Rui Amaral poderia levá-lo a caminhos já traçados pela maioria dos artistas plásticos, seus conterrâneos. Mas, ciente de seu papel social, Amaral atua, e com arte refaz não apenas cenograficamente, a sua cidade: São Paulo”, resume o crítico e historiador da Aica/Unesco João Spinelli.

Nesta entrevista ao NOTAS, ele conta sobre o seu trabalho, a valorização do graffiti brasileiro como arte no mundo e os obstáculos internos, como a Lei Cidade Limpa. Expõe também a sua opinião sobre pixação, novas tecnologias e a necessidade de estímulo a cultura.

NOTAS – Em 2008, a Prefeitura de São Paulo apagou acidentalmente um graffiti d’Os Gêmeos na Radial Leste, o que gerou muita polêmica com a Lei Cidade Limpa. Como você vê a relação entre a arte urbana e essa legislação em vigor na cidade de São Paulo?

Rui – Apesar dessa Lei, eu e muitos outros artistas estamos aos poucos estabelecendo um diálogo prolífico com as autoridades. Muitos espaços “nobres” foram abertos em toda cidade, pontos de ônibus e outdoors, por exemplo. Espaços que podem ser aproveitados pela arte de rua para revitalizar e criar uma cidade mais bonita com arte popular e integração social.

Porém, no lado negativo da questão, muitos trabalhos bons de artistas conceituados, como os Gêmeos, foram apagados, ou correm o risco de serem apagados. Por isso esse diálogo com as autoridades responsáveis como Andrea Mattarazo e Regina Monteiro tende a envolver questões relacionadas à formação desses agentes públicos, responsáveis pela execução da Lei. É preciso, creio eu, que haja participação desses agentes em oficinas e workshops de arte de rua, uma maneira de conscientizar sobre a sua importância e treinar o olhar para o que deve e o que não deve ser apagado pela tinta cinza. Eu e Os Gêmeos sugerimos algo nesse sentido para o Andrea Matarazzo e a Regina Monteiro, diretora do EMURB, como uma palestra para esclarecer melhor o assunto.

NOTAS – Já apagaram alguma obra sua?

Rui – Para você ter uma idéia de como isso acontece, pintamos os postes aqui na rua do meu ateliê apareceram agentes de fiscalização da [Lei] Cidade Limpa para apagar o trabalho. No mesmo momento fui conversar com o responsável e explicar para ele que aqueles desenhos não eram o que ele pensava. Trocando opiniões, ele entendeu e manteve. Inclusive ele mesmo contribui com alguns desenhos (risos).

NOTAS – Como um dos pioneiros da arte urbana em São Paulo e, consequentemente no Brasil, você vê a evolução da mesma ao longo dos anos?

Rui – É uma arte que surgiu do vanguardismo de artistas como Alex Vallauri e de grupos como o TupyNãoDá, do qual fiz parte, na década de 1980 e hoje passa por esse momento especial.

Vejo a evolução do graffiti muito relacionada como a evolução do skate, por exemplo, pois também foi um elemento na criação da cultura urbana que surgia na época em São Paulo. Quando jovem eu andava de skate com amigos nas ruas do Morumbi e tínhamos que jogar as pranchas em terrenos baldios sempre que a polícia passava por nós, justamente pra evitar que fossem confiscados. Hoje a cultura do skate é uma indústria absorvida pelo mercado, está envolvida na moda, nas artes gráficas, entre tantas outras coisas. O graffiti começa a passar por esse momento da absorção, da legitimação pelo mercado, a custo de muita iniciativa de artistas gráficos, como eu, além de projetos sociais que são realizados nas comunidades carentes, onde o graffiti e mesmo a pixação, são uma linguagem da realidade urbana vivida por eles.

NOTAS – Qual a importância do graffiti brasileiro no mundo?

Rui – Desde os anos 80, nossa arte tem chamado a atenção lá fora, o que começou com projetos em parceria com instituições como o Adido Cultura da França, galerias e museus na Europa que colocaram os artistas “brazucas” em destaque e atraíram mais gente olhando pra cá.

Eu sempre brinco que temos os “Ronaldinhos” da área. O maior exemplo atual são Os Gêmeos e o Nunca, os seus trabalho chegaram no Tate Modern Museum de Londres, em Nova York, em tantos lugares que são os sonhos de qualquer artista no mundo. Além deles, outros artistas foram responsáveis por essa consolidação mundo a fora do graffiti brasileiro e sua profissionalização, como eu,  Ozeas Duarte, Celso Gitahy, Maurício Villaça, Vado do Cachimbo, Nina, Titi Freak, Onesto, C.A.L.M.A, tantos que é uma injustiça não citar.

NOTAS – Que funções a arte urbana pode exercer diretamente na sociedade?

Rui – A arte urbana é democrática, porque é uma intervenção para a apreciação dos cidadãos de todas as classes sociais. Instiga, intriga e questiona, estimulando o “pensar a cidade” de maneira integradora. É uma ferramenta inteligente quando se trata de jovens, pois tem apelo entre aqueles que estão em busca cultura e querem aprender a fazer uma arte com a qual se identificam e que faz parte da sua realidade.  Além da cultura e da construção de um senso estético para o jovem carente.

Ontem, por exemplo, estive em cidade Tiradentes trabalhando com um projeto social para o graffiti. Uma líder comunitária me dizia o quanto é difícil fornecer uma ocupação cultural para aqueles jovens, a quantidade de jovens ociosos é impressionante em lugares de condições precárias é impressionante. O graffiti insere e cria uma porta de entrada ampla para o jovem que pode enveredar também para a fotografia, musica, computação gráfica, internet e comunicação.

NOTAS – Quais projetos seriam interessantes para ampliar essa essência integradora da arte?

Rui – Em São Paulo temos muitos projetos acontecendo, temos pontos de cultura que trabalham nesse sentido em diversas regiões, carentes ou não. Acho que algo nos moldes de um museu da arte urbana poderia potencializar esse efeito aglutinador, além de e estimular a pesquisa, a criação e a coordenação dos diversos projetos de grafite que já existem. Enfim, a construção de uma central da arte urbana em São Paulo que atuasse na divulgação do artista brasileiro que está nessa área, e fomentasse a carreira de iniciantes, incluindo aí os pichadores, por que não? É importante que uma idéia assim possa acontecer com a participação deles também, envolvendo os mais diversos tipos de linguagem e idéias, pois se trata de algo que nasceu popular e contestador.

NOTAS – Existe um limite entre a pichação, considerada contravenção penal devandalismo,e o grafite?

Rui – A origem do grafite é ilegal, a pichação que trata-se de uma arte ativista, com intenção de cutucar e contestar o poder publico. Mas hoje esse caminho da depredação é reprimido da maneira errada. Quem faz isso, o grafiteiro ou pichador de guerrilha, não está simplesmente vandalizando, está perguntando por que a cidade tem que ser cinza, por que tantos problemas sociais e desigualdade onde vive.  Uma ação que combate, que bate de frente com outras pessoas é sempre um pouco complexa, por não se entender os motivos por trás disso.

NOTAS – Como valorizar esta arte?

Rui – Pra mim, como artista já reconhecido dentro da arte urbana, passou o momento da guerrilha. Durante a minha carreira criei diálogos e abri canais que tiram um pouco dessa força. Não sou um purista, acho que tudo pode ser entendido com o tempo, o grafite já foi incorporado, a pichação também pode vir a ser.

Apoio a sua valorização como arte até por ser uma entrada para a linguagem e a realidade desses jovens. O modernista Oswald de Andrade resumiu bem isso que estou tentando dizer quando escreveu que “A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”.

NOTAS – O poder público tem contribuído para esta valorização?

Rui – Dentro do possível, sim. Mas é preciso criar mais oportunidades para o jovem que se interessa por arte urbana, inserir ele numa infra-estrutura bacana com atenção para as condições precárias em que ele vive e partir para ações que embelezem e revitalizem o espaço público. Tanto quem faz, como quem gosta do graffiti quer ver arte e cultura por toda a cidade, reviver um pouco do sentimento que foi vivido na Belle Époque francesa, quando a inovação podia ser encontrada livremente. Contribui para o mundo e contribui para o mercado. Mas para que isso aconteça é preciso qualificação de muitos jovens para aprender a fazer pintura. Um lugar que formasse profissionais para fazer esse serviço, pois a arte urbana é uma arte de massas e tem um mercado crescendo.

Quando digo das massas, penso na mesma justificativa que o Grupo Santa Helena de utilizava na década de 1930. Eles tinham como objetivo ser um grupo da arte operária, uma arte das massas, exatamente onde o graffiti nasceu e evoluiu.

NOTAS – Quais são as tendências no futuro da arte urbana?

Rui – Cara, aposto muito na internet, nas novas tecnologias, ferramentas fantásticas que vão “linkar” tudo e potencializar demais as atenções na arte em geral. O graffiti tem muito espaço de ação com a webart na rede. Eu mesmo já fiz sites, animações e logos para internet, além do meu próprio site, o Artbr (www.artbr.com.br) que agrega notícias sobre o meu trabalho e diversas ações de publicidade de projetos do meio cultural e artístico. E-learning também é uma alternativa que se abre com a banda-larga, sou um dos coordenadores junto a Fundação Hermínio Ommeto na segunda experiência brasileira de tentar concretizar esse projeto com a produção diária de vídeos para mais de 400 alunos.

A boa lição e a má educação

13/11/2009
um burro que usa batom

O silêncio vale ouro, quando não se tem nada a dizer.

Lembraça de um garoto esquecido

13/08/2009

Perfil de um maduro Chuck Hipolitho, ex vocalista e guitarrista dos Forgotten Boys

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Encontrei Chuck Hipolitho, 29 anos, com seus cabelos rebeldes na altura dos ombros, vestindo slim jeans e uma camiseta que facilitava a plena visão das orgulhosas tatuagens que possui. No braço esquerdo, chamas e estrelas em vermelho e amarelo. No direito, em verde, uma cobra que se entrelaça no nome de sua banda, os Forgotten Boys.

Chuck acabara de voltar do dentista e esperava pacientemente enquanto lia e relia o cardápio de um café na Vila Madalena, bairro onde reside na zona oeste de São Paulo. E ao contrário do que se possa esperar de um rock star e seu típico lifestyle, ele pede um pudim e um cafézinho.

Sou recebido com um forte e confiante aperto de mão – o sinal de bom caráter que me confirmou sua fama de simpático bom moço, e da qual ele faz digna justiça. A situação pode soar contraditória na dialética que faz do rock também imagem, contudo, com Chuck adquire surpreendente normalidade. “Quem o conhece, o compra. E essa escolha na maioria das vezes é unânime”, ressalta Rene, primo e um dos melhores amigos do músico. De fato, o vocalista e guitarrista dos Forgotten Boys guarda muito do menino de Pirassununga e da criação que dona Maria e seu pai militar, Pedro Humberto, lhe deram.

Para tentar quebrar o gelo inicial de toda entrevista, digo que ele é um dos principais culpados por terem me convencido a comprar um álbum do Supla, na época em que dirigiu “Os Piores Clipes do Mundo”, programa de televisão apresentado por Marcos Mion na MTV. Mas difícil era encontrar qualquer colega da sétima série que também não o tivesse. Ele mesmo não sabe o quanto é de fato culpado pela influência do programa no público adolescente. Porém, admite sem remorsos que foi o primeiro a fazer a mascote punk de João Gordo, o Fudêncio, falar. “Era tudo muito ‘tosco’, e eu precisava fazer o bonequinho falar, saiu o ‘mimimi’”, defende-se o réu. Conclusão, hoje Fudêncio tem um desenho só seu no canal.

Vale ressaltar que entrou na MTV como estagiário no primeiro ano da faculdade de Publicidade e Propaganda e saiu como lenda da programação do canal que lhe deu até o apelido. Começou por lá com o nome de batismo, Eduardo, mas decidiu pintar o cabelo de vermelho para a alegria do piadista de plantão que encontrou logo a referência cômica. “Lá vai o ‘Chuck’, o boneco assassino”.

Forgotten, but cool, anyway…

Em 1999, foi apresentado por um amigo e integrou os Forgotten Boys para substituir Fernando Ramone (sem o parentesco óbvio), largando a bateria e migrando para a guitarra. A banda na época contava com Arthur Franquini (bateria) e Gustavo Riviera (guitarra e voz) e tinha o que Chuck procurava, uma banda que pudesse responder com um bom rock à invasão do axé e dos pagodeiros na década de 1990. Criaram um som embasado nos anos 60 e 70, com pegadas de The Stooges e Ramones, que se tornou muito apreciado por um fiel público que os acompanha na noite paulistana.

Não pretendem ser, mas são considerados o que não conseguiram ser antes por falta de divulgação, uma alternativa ao que contamina as rádios. Para Chuck o importante é ser independente na criação e capaz de fazer rock que seja bom para ele mesmo. O resto é bula para os críticos que procuram remédio para o rock nacional.

Forgotten Boys - Gimme More... and More (2004)

A banda ainda que longe das rádios, não é desconhecida, possui fãs que não perdem a chance de lotar as casas de shows. E se há algum problema – por falta de palavra melhor – é a escolha da banda pelo rock em inglês. “O ritmo do português não combina com o nosso som. Acho que soariam bobas se não fossem em inglês”, Chuck afirma decididamente. Mas, convém dizer que isso é parte da relutância das rádios, pois o público está desacostumado com a idéia de um bom rock gringo ser 100% brasileiro.

Na Argentina, Uruguai, ou EUA, o publico é mais receptivo. “Lá as pessoas são mais informadas, você vê as pessoas lendo livros nos cafés. É outro padrão intelectual”, comenta Chuck. No entanto, as faixas em português como “Não Vou Ficar” e “Blá Blá Blá” do álbum “Stand By The D.A.N.C.E” são aceitas com gratidão pelo público, apesar de parecerem mais pop. “Claro, pode ser uma tendência, no próximo álbum haverão outras mais”, conta quando indagado sobre futuros projetos na língua dos Mutantes.

A missão em andamento

Sobre a sua infância, basta dizer que usou aparelho dos 8 aos 13 anos. Mas há algo mais interessante para saber do que a experiência corretiva no ortodontista. A família conta que Chuck foi uma criança prodígio, quando interessado em algo procurava aprender o máximo possível a respeito. “Eu não diria ‘prodígio’, mas fui uma criança cheia de manias, encanava com o que me interessava”, responde com modéstia. Teve manias como desenhar, montar réplicas de veículos em miniatura, colecionar pôsteres de aviões, aprender a mexer com eletrônica, consertar rádios…

Mas de todas as suas empreitadas compulsivas pelas coisas que despertavam sua curiosidade, a mais famosa e comentada pela família é a paixão por peixes e aquários. Tinha em seu quarto diversos aquários com variados peixes que estudava. Tamanha a fixação, lia livros sobre o assunto e mantinha diários sobre o comportamento e a reprodução das criaturas. Pensou seriamente em se tornar biólogo e até hoje lembra os nomes científicos dos peixes que criava, mas não consegue manter um aquário por causa da falta de tempo entre ensaios, compromissos e viagens.

Em analogia, pode-se dizer que suas manias são o reflexo de outra faceta de sua personalidade. Está sempre disposto a aprender, a conhecer tudo o que pode enquanto pode não se dando por satisfeito. Quando lhe pergunto qual seu filme favorito, por exemplo, ele me responde que é “Apocalipse Now” de Francis Ford Coppola, e a razão da preferência ele explica: “Porque fala sobre concluir um objetivo. Ter uma missão e cumpri-la”, resume.

As novas e a maior mania

A música, a maior de todas as suas “manias”, começou como curiosidade que virou paixão pelo rock. “Quando tinha uns 12, 13 anos de idade, ganhei dos amigos uma fita gravada com músicas do Nirvana, Sepultura, Guns’n’Roses… Naquela época, só assim para as coisas chegarem até a gente em Pirassununga. Bem diferente de hoje, quando toda casa tem MTV e acesso ao MySpace”, explica.

E do amor à primeira “escutada” pela música, veio a vontade de aprender a fazer o próprio som. Autodidata em tudo que sabe sobre música, aprendeu a tocar bateria para acompanhar os Ramones. Não fez mal na frente dos punks nova-iorquinos quando em 2003 os Forgotten Boys abriram o show de Marky Ramones, mas então tocava guitarra. “Acho que toco bateria melhor do que guitarra. Comecei nisso.”, admite Chuck, ressaltando seu amor pelo instrumento de Ringo, claro, seu beatle favorito.

A música junta à habilidade para a televisão só poderia resultar no clipe, e Chuck além de criticá-los sabe fazê-los, tanto que em 2003 concorreu com os Forgotten Boys por melhor clipe independente no VMB. “Passava o dia vendo Akira e escutando música, viajava ao perceber como a música combinava certinho com o que acontecia na tela”, relata.

Na verdade ele não se satisfez apenas com a produção, ou a direção, como prova o curta-metragem “5 Mentiras” (referencia à música de mesmo nome), dirigido por Thomas Hale. Precisava se arriscar como ator também para se sentir completo. No seu primeiro papel interpretou um fã que não tem ingressos para o show da banda favorita. Sem problemas, quando se sabe que Chuck teve ajuda da esposa, nada menos que uma das jovens atrizes mais prestigiadas do país, Débora Falabella.

E nesse quesito, o assédio da imprensa no seu casamento não parece preocupá-lo e ele o considera tolerável. “Só castelo fraco precisa de muro para se proteger. Nós confiamos um no outro e crescemos juntos”, diz um maduro Chuck antes dos 30. O motivo da atração e do sucesso ele mesmo ainda busca entender mas explica com convicção:“Pessoas apaixonadas pelo que fazem são pessoas apaixonantes”.