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Tony Parsons: “Bang- Bang”

24/09/2009
Tony Parsons

Tony Parsons

Quando se sonha em ser o cronista da sua geração, é normal ir atrás de Balzac, Walt Whitman, Fitzgerald, Arthur Miller, Bellow…E, entre tantos, achar Tony Parsons, o jornalista do punk, é sempre uma agradável surpresa para o leitor desavisado. Digo mais, se eu não fosse eu, gostaria de ser Tony Parsons com o Sex Pistols numa balsa no Tamisa em pleno jubileu de ouro da rainha Elizabeth II, levando porrada da polícia ao som de Nevermind the Bullocks.

Além disso, conhecer os caras do The Clash quando não tinham dinheiro para comprar as passagens de volta para a casa, perguntar ao George Michael se ele de fato é um babaca, conversar sobre propaganda nazista com David Bowie, chamar a Kylie Minogue de “copo de leite desnatado” e tomar suco de laranja com Billy Idol é apenas um exemplo do que se encontra entre as célebres matérias de “Disparos do Front da Cultura Pop” – coletânea que reúne os melhores textos de Parsons para New Musical Express, Daily Mirror, Telegraph, etc.

Humor ácido e sutil ironia permeiam as opiniões e críticas de Parsons não apenas sobre música, mas também sobre a classe média inglesa (“a selva de polenta”), a classe operária (“a selva tatuada”), os mendigos de Londres e as fanzocas fáceis que acompanham os roqueiros.

Mas não se engane, Parsons não é um liberal pacífico e culto como a maioria dos colunistas ingleses, pelo contrário, é um conservador ferrenho. Para ele, por exemplo, mulheres bêbadas são indignas de atenção ou tratamento educado, a música ambiente é uma praga inventada por Brian Eno quando sua vitrola não funcionava e os hippies de hoje não são hippies são babacas que acreditam em vida extraterrestre e o poder curativo dos cristais.

Parsons: camarada dos Pistols

Parsons: camarada dos Pistols

Minha dica para quem se interessar é que não deixe de ler as reportagens sobre suas viagens para o Japão, União Soviética, Chicago, Houston e outras localidades. Uma visão distante e tipicamente inglesa das excentricidades comportamentais e culturais de diferentes povos, que para Parsons não poderiam – por mais remotos que fossem – estar livres da futilidade que é a cultura pop.

Pô, vó!

04/02/2009
Selo comemorativo do Serviço de Correios dos Estados Unidos com a foto F. Scott Fitzgerald (1995)

Selo comemorativo do Serviço de Correios dos Estados Unidos com a foto F. Scott Fitzgerald (1995)

No meu último post teci breves comentários sobre a obra de F.Scott Fitzgerald, pelo menos o que conheço dela até o momento. Nesta semana encontrei tempo livre para ler mais um livro de sua autoria, o seu primeiro: “Seis contos da Era do Jazz” de 1922.

Sempre enredos repetitivos e previsíveis, mas não enfadonhos, renderam de Hemingway, a seguinte crítica: “Fitzgerald só escreve sobre ricos”. De fato, concordo com seu parceiro de aventuras na Paris de 1920.  Mas não é apenas esse óbvio elitismo que salta aos olhos nas páginas de Fitzgerald. Quase um século depois, quem entra em contato com a obra de Fitzgerald, vê que no passado não era muito estranho ser racista e machista também. Certos trechos são de ruborizar o mais conservador entre os contemporâneos.

Entre os conflitos amorosos da nata social americana vivendo ao máximo do estilo, a narrativa se quebra para descrever troca de tiros entre ladrões negros de Paris, judeus nova-iorquinos avarentos e oportunistas sacaneando campeonatos de baseball e mulheres desonestas por conveniência da natureza feminina. Assim, Fitzgerald lança mão de todos os preconceitos comuns em sua época, sem se dar conta de estar errado. Politicamente incorreto por acidente, hoje me faz rir encontrar nas suas descrições afetadas uma percepção tão errada do que se tornaria a história.

Mas é compreensível e não deveria ser um impeditivo para leitura de muitos dos seus clássicos, afinal Fitzgerald morreu em 1961 e não viu o auge da luta pelos direitos civis. Quando ler basta imaginar que se trata de uma história contada por aquela vovozinha levemente racista que causa constrangimento sem se dar conta disso.