Lembraça de um garoto esquecido

13/08/2009

Perfil de um maduro Chuck Hipolitho, ex vocalista e guitarrista dos Forgotten Boys

chuck_01

Encontrei Chuck Hipolitho, 29 anos, com seus cabelos rebeldes na altura dos ombros, vestindo slim jeans e uma camiseta que facilitava a plena visão das orgulhosas tatuagens que possui. No braço esquerdo, chamas e estrelas em vermelho e amarelo. No direito, em verde, uma cobra que se entrelaça no nome de sua banda, os Forgotten Boys.

Chuck acabara de voltar do dentista e esperava pacientemente enquanto lia e relia o cardápio de um café na Vila Madalena, bairro onde reside na zona oeste de São Paulo. E ao contrário do que se possa esperar de um rock star e seu típico lifestyle, ele pede um pudim e um cafézinho.

Sou recebido com um forte e confiante aperto de mão – o sinal de bom caráter que me confirmou sua fama de simpático bom moço, e da qual ele faz digna justiça. A situação pode soar contraditória na dialética que faz do rock também imagem, contudo, com Chuck adquire surpreendente normalidade. “Quem o conhece, o compra. E essa escolha na maioria das vezes é unânime”, ressalta Rene, primo e um dos melhores amigos do músico. De fato, o vocalista e guitarrista dos Forgotten Boys guarda muito do menino de Pirassununga e da criação que dona Maria e seu pai militar, Pedro Humberto, lhe deram.

Para tentar quebrar o gelo inicial de toda entrevista, digo que ele é um dos principais culpados por terem me convencido a comprar um álbum do Supla, na época em que dirigiu “Os Piores Clipes do Mundo”, programa de televisão apresentado por Marcos Mion na MTV. Mas difícil era encontrar qualquer colega da sétima série que também não o tivesse. Ele mesmo não sabe o quanto é de fato culpado pela influência do programa no público adolescente. Porém, admite sem remorsos que foi o primeiro a fazer a mascote punk de João Gordo, o Fudêncio, falar. “Era tudo muito ‘tosco’, e eu precisava fazer o bonequinho falar, saiu o ‘mimimi’”, defende-se o réu. Conclusão, hoje Fudêncio tem um desenho só seu no canal.

Vale ressaltar que entrou na MTV como estagiário no primeiro ano da faculdade de Publicidade e Propaganda e saiu como lenda da programação do canal que lhe deu até o apelido. Começou por lá com o nome de batismo, Eduardo, mas decidiu pintar o cabelo de vermelho para a alegria do piadista de plantão que encontrou logo a referência cômica. “Lá vai o ‘Chuck’, o boneco assassino”.

Forgotten, but cool, anyway…

Em 1999, foi apresentado por um amigo e integrou os Forgotten Boys para substituir Fernando Ramone (sem o parentesco óbvio), largando a bateria e migrando para a guitarra. A banda na época contava com Arthur Franquini (bateria) e Gustavo Riviera (guitarra e voz) e tinha o que Chuck procurava, uma banda que pudesse responder com um bom rock à invasão do axé e dos pagodeiros na década de 1990. Criaram um som embasado nos anos 60 e 70, com pegadas de The Stooges e Ramones, que se tornou muito apreciado por um fiel público que os acompanha na noite paulistana.

Não pretendem ser, mas são considerados o que não conseguiram ser antes por falta de divulgação, uma alternativa ao que contamina as rádios. Para Chuck o importante é ser independente na criação e capaz de fazer rock que seja bom para ele mesmo. O resto é bula para os críticos que procuram remédio para o rock nacional.

Forgotten Boys - Gimme More... and More (2004)

A banda ainda que longe das rádios, não é desconhecida, possui fãs que não perdem a chance de lotar as casas de shows. E se há algum problema – por falta de palavra melhor – é a escolha da banda pelo rock em inglês. “O ritmo do português não combina com o nosso som. Acho que soariam bobas se não fossem em inglês”, Chuck afirma decididamente. Mas, convém dizer que isso é parte da relutância das rádios, pois o público está desacostumado com a idéia de um bom rock gringo ser 100% brasileiro.

Na Argentina, Uruguai, ou EUA, o publico é mais receptivo. “Lá as pessoas são mais informadas, você vê as pessoas lendo livros nos cafés. É outro padrão intelectual”, comenta Chuck. No entanto, as faixas em português como “Não Vou Ficar” e “Blá Blá Blá” do álbum “Stand By The D.A.N.C.E” são aceitas com gratidão pelo público, apesar de parecerem mais pop. “Claro, pode ser uma tendência, no próximo álbum haverão outras mais”, conta quando indagado sobre futuros projetos na língua dos Mutantes.

A missão em andamento

Sobre a sua infância, basta dizer que usou aparelho dos 8 aos 13 anos. Mas há algo mais interessante para saber do que a experiência corretiva no ortodontista. A família conta que Chuck foi uma criança prodígio, quando interessado em algo procurava aprender o máximo possível a respeito. “Eu não diria ‘prodígio’, mas fui uma criança cheia de manias, encanava com o que me interessava”, responde com modéstia. Teve manias como desenhar, montar réplicas de veículos em miniatura, colecionar pôsteres de aviões, aprender a mexer com eletrônica, consertar rádios…

Mas de todas as suas empreitadas compulsivas pelas coisas que despertavam sua curiosidade, a mais famosa e comentada pela família é a paixão por peixes e aquários. Tinha em seu quarto diversos aquários com variados peixes que estudava. Tamanha a fixação, lia livros sobre o assunto e mantinha diários sobre o comportamento e a reprodução das criaturas. Pensou seriamente em se tornar biólogo e até hoje lembra os nomes científicos dos peixes que criava, mas não consegue manter um aquário por causa da falta de tempo entre ensaios, compromissos e viagens.

Em analogia, pode-se dizer que suas manias são o reflexo de outra faceta de sua personalidade. Está sempre disposto a aprender, a conhecer tudo o que pode enquanto pode não se dando por satisfeito. Quando lhe pergunto qual seu filme favorito, por exemplo, ele me responde que é “Apocalipse Now” de Francis Ford Coppola, e a razão da preferência ele explica: “Porque fala sobre concluir um objetivo. Ter uma missão e cumpri-la”, resume.

As novas e a maior mania

A música, a maior de todas as suas “manias”, começou como curiosidade que virou paixão pelo rock. “Quando tinha uns 12, 13 anos de idade, ganhei dos amigos uma fita gravada com músicas do Nirvana, Sepultura, Guns’n’Roses… Naquela época, só assim para as coisas chegarem até a gente em Pirassununga. Bem diferente de hoje, quando toda casa tem MTV e acesso ao MySpace”, explica.

E do amor à primeira “escutada” pela música, veio a vontade de aprender a fazer o próprio som. Autodidata em tudo que sabe sobre música, aprendeu a tocar bateria para acompanhar os Ramones. Não fez mal na frente dos punks nova-iorquinos quando em 2003 os Forgotten Boys abriram o show de Marky Ramones, mas então tocava guitarra. “Acho que toco bateria melhor do que guitarra. Comecei nisso.”, admite Chuck, ressaltando seu amor pelo instrumento de Ringo, claro, seu beatle favorito.

A música junta à habilidade para a televisão só poderia resultar no clipe, e Chuck além de criticá-los sabe fazê-los, tanto que em 2003 concorreu com os Forgotten Boys por melhor clipe independente no VMB. “Passava o dia vendo Akira e escutando música, viajava ao perceber como a música combinava certinho com o que acontecia na tela”, relata.

Na verdade ele não se satisfez apenas com a produção, ou a direção, como prova o curta-metragem “5 Mentiras” (referencia à música de mesmo nome), dirigido por Thomas Hale. Precisava se arriscar como ator também para se sentir completo. No seu primeiro papel interpretou um fã que não tem ingressos para o show da banda favorita. Sem problemas, quando se sabe que Chuck teve ajuda da esposa, nada menos que uma das jovens atrizes mais prestigiadas do país, Débora Falabella.

E nesse quesito, o assédio da imprensa no seu casamento não parece preocupá-lo e ele o considera tolerável. “Só castelo fraco precisa de muro para se proteger. Nós confiamos um no outro e crescemos juntos”, diz um maduro Chuck antes dos 30. O motivo da atração e do sucesso ele mesmo ainda busca entender mas explica com convicção:“Pessoas apaixonadas pelo que fazem são pessoas apaixonantes”.

Anúncios

25 de junho, um dia que não acabou…ainda

25/06/2009
Oiticica: Estranheza no que parece certo

Oiticica: Estranheza no que parece certo

No meu orkut no dia 25 de junho de 2009

“Sorte de hoje: Estude como se você fosse viver para sempre. Viva como se você fosse morrer amanhã”

Há dias como este, que ainda não acabou, em que o sentimento do mundo parece “torto”. Um caos controlado como uma composição de quadrados de Hélio Oiticica, incomodando a minha visão, desconfortando a minha alma, extravasando alguma energia negativa que só os mais sensíveis parecem sentir no ar, como um cheiro ou um zumbido no ouvido.

Acordei hoje e me preocupei em realizar todas as minhas tarefas para a semana de provas da Cásper Líbero e  até às 15h tudo seguia o seu rumo aos trancos e barrancos.

1.Recebo um e-mail de uma amiga que aqui transcrevo:

“Oi, pessoal!
Tudo bem?
Tive, hoje, a confirmação de que peguei gripe suína.  Recebi várias instruções da Vigilância Epistemológica e gostaria de avisar a todos vocês que tiveram contato comigo nesta segunda-feira o seguinte:
Se alguém apresentar sintomas como febre, tosse, dores no corpo, de cabeça ou nos olhos, é importante que se dirija ao Emílio Ribas, na Av. Dr. Arnaldo, para fazer o exame, informando que teve contato com uma pessoa confirmada. O exame é simples (suabnasal), o resultado sai em 48 horas e a medicação é fornecida por eles.
Em caso de suspeita forte, serão recomendados 10 dias de isolamento.
Ok?
Espero que todos estejam bem!
abraços (de longe) sem beijos”
Claro que na segunda feira dividi uma latinha de coca com essa mesma menina. E agora posso ter gripe suína, ótimo! Minhã mãe ainda não sabe mas já saiu na Folha de São Paulo. E Nesse fim de semana tenho um programa agendado: Turismo no Emílio Ribas.
Logo, um comunicado da faculdade. Férias antecipadas e os trabalhos que fiz para hoje ficam para o mês que vem. Mas o que mais me incomoda é ela ter escrito “epistemológica” e não “epidemológica”. Se existe a tal vigilancia epistemológica é para assegurar que todos os cidadãos estão cientes dos avanços na teoria do conhecimento e nos trabalhos filosóficos que se referem às categorias mentais e os processos funcionais do pensamento. Ainda bem, porque não suporto quem não entende de metafísica neo-kantiana. Agora sim, me sinto mais seguro.
 
 

Caso morra como serei lembrado? Por esse post ou por ser um rapaz bonito?

2. A Morte de Michael Jackson, 50

Michael Jackson’s heart…Beat it, beat it! And then beat it no more. E no mesmo dia em que morreu a Farrah Fawcett, 62. Tamanha a comoção que o Twitter pediu “pára o mundo que eu quero descer”: Twitter is over capacity. Too many tweets! Please wait a moment and try again.

A primeira coisa que fez quando chegou no céu foi perguntar: E o menino Jesus, cadê?

 

E como será lembrado? Como inventor do moonwalk ou monstro do armário?
3. Gugu foi para Record

Para alguns parece que os anos 80 acabaram hoje.
Como será lembrado? Entrevista falsa com o PCC ou salário mensal de 3 milhões de reais?

 

A Coruja de Minerva

22/06/2009
Contra a Guerra do Vietnã: Jan Rose Jasmir em 1966

Contra a Guerra do Vietnã: Jan Rose Jasmir em 1966

“Os mais humanos não fazem a revolução. Eles fazem bibliotecas.” Jean-Luc Godard, cineasta e crítico

Caso 1

Há 45 dias a Universidade de São Paulo está em greve. Como fruta da estação, sempre no mês de maio, funcionários, professores e alunos da instituição param suas atividades para discutir verbas, políticas e ideologias. Na pauta de reivindicações deste ano estão reajustes salariais, abertura de cursos a distancia e a readmissão de um funcionário, Claudionor Brandão, afastado, inclusive, por assédio sexual. Aparentemente, elementos que não seriam o suficiente para fazer de um símbolo do ensino superior brasileiro um cenário de presídio rebelado, como o que foi visto pela televisão no último dia 9.

Mas a combinação do poder de mobilização de um líder sindical que só poderia ser Claudionor Brandão, uma reitoria indisposta para as negociações e a presença de uma força policial violenta que nunca entendeu direito o conceito de “autonomia universitária” só poderia resultar no que se viu, ou seja, em gente que ganha pouco batendo em gente que ganha menos ainda. Um vexame das autoridades que revestiu de legitimação a greve que parou as aulas na maioria dos cursos da USP.

No poema “De quem a Culpa?” de Victor Hugo, alguém pergunta indignado ao incendiário de uma biblioteca porque cometera um crime tão infame contra a razão, a tolerância, enfim, os valores mais nobres de nossa humanidade.  O culpado responde em um tom que não se pode distinguir entre a vergonha e o orgulho: “Eu não sei ler!”.

Dessa mesma maneira, responde a polícia militar quando bate na torcida, bate no menor de rua, bate no estudante e no professor da USP. Para o policial militar mal treinado, mal pago e sem paciência para as reclamações dos “filhinhos de papai” da universidade, só existe o dever a ser cumprido. Mesmo com flores no cano do fuzil ele atiraria em Jan Kasmir se assim ordenassem.

Se antes havia estudantes e professores contra a greve, perceptivelmente em maior número, não se pode dizer isso depois das bombas de efeito moral, das lágrimas e das balas de borracha.

Caso 2

Situação similar a da USP hoje, vive um país como o Irã nesta semana, que saiu às ruas para protestar contra uma eleição decidida nas cúpulas dos aiatolás e só precisou do povo para parecer justa aos olhos dos estrangeiros.

O povo quer um moderado como Mousavi, já os líderes querem Ahmadinejad, alguém capaz de entregar a mensagem de ordem e fundamentalismo islâmico para a nação e para o mundo. Lá, a polícia, em termos de tratamento dos civis, é como a nossa. Assim, uma pessoa morreu, várias ficaram feridas e muitos foram presos.

Nos dois casos foi preciso que a biblioteca fosse queimada para despertar a indignação. Na USP para se lembrar como as coisas são no final das contas e, no Irã, para entender que se pode escolher a liberdade. Kant estava certo quando escreveu que a coruja de Minerva, deusa da sabedoria, só alça vôo quando é tarde demais, sempre ao anoitecer.

Santa cuca fresca

18/02/2009

Hoje o papa Bento XVI, grande fã de histórias engraçadas da inquisição, teologia da fé e programas de abstenção sexual se mostrou com a cuca quente na praça de São Pedro, pedindo mais união dos povos.  O  solidéu ficou sabendo e decidiu fugir durante o sermão.

Papa: tentativa fracassada de passar imagem carismática

Papa: tentativa fracassada de passar imagem carismática


*Post com a colaboração criativa e produtiva da excelentíssima Natália Nambara, diretora artística do Notas.

Enfim, democracia

14/02/2009

Eu, Morsa, Andrés Sanchez, meu primo Rafael

Os corinthianos do dia: Eu, Morsa, Andrés Sanchez, meu primo Rafael

Sou alheio a qualquer obrigação como cidadão, mas levanto da cama num sábado de manhã para impedir uma possível guerra civil. Por isso hoje fui exercer meu direito corinthiano de escolher o novo presidente para os próximos três anos no maior clube brasileiro. Pude até botar a conversa em dia com alguns ídolos históricos, como o Biro Biro.

 

 

Eu e o espirito de Citadini marcando um churras

Eu e o espírito de Citadini marcando um churras

Juan, Rafael, Biro Biro e Eu

Fiscalizando o processo democrático: Juan, Rafael, Biro Biro e Eu

O novo estatuto, votado há alguns meses atrás, estabelece que somente  os 10.569 sócios podem escolher o novo aiatolá, sem a necessidade de aprovação dos Conselheiros. Com algumas boas novas: sem direito a reeleição e votos em urnas eletrônicas para facilitar o processo de apuração.

 

Concorreram três chapas. Uma delas, a Renovação e Transparência, formada pelo atual presidente Andrés Sanchez, Manoel Félix Cintra, presidente da BM&F Bovespa, e Roberto de Andrade, atual vice administrativo. A oposição, que se auto intitula Pró- Corinthians conta  com o dono da Kalunga, Paulo Garcia, e com o ex-diretor de futebol do clube Roque Citadini. Osmar Stábile, para fazer número encabeça a chapa Por um Corinthians Legal, tendo ao seu lado o advogado Ilmar Schiavenato e a empresária Maria Aparecida Fillipini.

 

Votei em Sanchez, claro, e que corinthiano sangue puro como eu não o faria? O homem foi responsável por ações que recolocaram o Corinthians na sua posição de direito. Trouxe-nos de volta à elite, unidos e com as contas em dia. Continuidade para o bom trabalho, para um estatuto forte e uma base para os campeonatos de 2009.

 

Paulo Garcia, por outro lado, sempre lembra meus aniversários com congratulações e espírito de renovação. Nas eleições fez questão de mandar kits com camisetas e cadernos do clube para todos da família. Chamou batucada de quem nem poderia votar, distribuiu adesivos e santinhos que sujaram o sagrado chão do Parque São Jorge.

 

Muito barulho por nada, muito dinheiro por nenhum retorno de confiança dos sócios. Não se ganha eleição no dia e a frase do hoje perceptivelmente triste Citadini ainda ecoa na minha cabeça. “Comemorar título de segunda divisão é como dar churrasco na laje para aquele primo que acabou de sair da cadeia”. Por isso tirei uma foto com o espectro político do homem. Não é todo dia que se vê fantasma.

 

Quanto a Stábile, a terceira via, fez sua campanha distribuindo Cd’s, enviados anonimamente às casas dos sócios, com notícias incriminadoras sobre as negociações dos jogadores do plantel alvinegro. Mais, entre os arquivos até escuta de conversas de André Sanchez ele incluiu. Um Corinthians Legal, claro.

Pô, vó!

04/02/2009
Selo comemorativo do Serviço de Correios dos Estados Unidos com a foto F. Scott Fitzgerald (1995)

Selo comemorativo do Serviço de Correios dos Estados Unidos com a foto F. Scott Fitzgerald (1995)

No meu último post teci breves comentários sobre a obra de F.Scott Fitzgerald, pelo menos o que conheço dela até o momento. Nesta semana encontrei tempo livre para ler mais um livro de sua autoria, o seu primeiro: “Seis contos da Era do Jazz” de 1922.

Sempre enredos repetitivos e previsíveis, mas não enfadonhos, renderam de Hemingway, a seguinte crítica: “Fitzgerald só escreve sobre ricos”. De fato, concordo com seu parceiro de aventuras na Paris de 1920.  Mas não é apenas esse óbvio elitismo que salta aos olhos nas páginas de Fitzgerald. Quase um século depois, quem entra em contato com a obra de Fitzgerald, vê que no passado não era muito estranho ser racista e machista também. Certos trechos são de ruborizar o mais conservador entre os contemporâneos.

Entre os conflitos amorosos da nata social americana vivendo ao máximo do estilo, a narrativa se quebra para descrever troca de tiros entre ladrões negros de Paris, judeus nova-iorquinos avarentos e oportunistas sacaneando campeonatos de baseball e mulheres desonestas por conveniência da natureza feminina. Assim, Fitzgerald lança mão de todos os preconceitos comuns em sua época, sem se dar conta de estar errado. Politicamente incorreto por acidente, hoje me faz rir encontrar nas suas descrições afetadas uma percepção tão errada do que se tornaria a história.

Mas é compreensível e não deveria ser um impeditivo para leitura de muitos dos seus clássicos, afinal Fitzgerald morreu em 1961 e não viu o auge da luta pelos direitos civis. Quando ler basta imaginar que se trata de uma história contada por aquela vovozinha levemente racista que causa constrangimento sem se dar conta disso.

Ixalá, que bomba?

04/02/2009

O Irã se prepara para mais uma eleição “democrática” nos próximos meses. Ao que parece na Terra dos Aiatolás duas escolhas possíveis já se formam no horizonte eleitoral. Entre o reformista do baixo clero Mohammad Khatami – presidente entre 1997 e 2005 – e o atual capeta da política internacional Mahmoud Ahmadinejad, que conta com o apoio do chefe-máximo aiatolá Khameini, a disputa se dará entre dois candidatos de perfis opostos e populares.

No mundo católico, o embate seria algo equivalente a padre Macerlo Rossi contra Bento XVI. Ahmadinejad tende a dar fôlego para o projeto de desenvolvimento nuclear, a predominância ultraconservadora nos costumes e manter o possível financiamento de milícias no Iraque e no Afeganistão. Já Khatami, a boa escolha na minha opinião, defende as melhores idéias do mundo civilizado: liberdade de expressão, relações diplomáticas justas com a União Européia e com a Ásia, mercado livre e liberal com investimento estrangeiro e , de quebra, direitos civis nos moldes ocidentais.

Agora, se você diz que essas idéias não são muito populares por lá, já lhe digo, amigo…Quando foi eleito pela primeira vez, Khatami arrebanhou nada mais, nada menos, que 70% dos votos. Mas o que atrapalhou na primeira vez foi a linha-dura que está hoje nos noticiários prometendo: “Não faremos uma bomba nuclear”. Que o efeito Obama se dê por lá também, quem sabe assim uma era de paz para arrumar a casa.

Está um pouco desatualizado. Mudam alguns atores mas a cena é sempre a mesma por enquanto, pela descontração:

Semana que vem: Tenho sido paparicado com doces, tortas e quitutes nos últimos dias será que a culpa de uma traição está sendo compensada com comida? Os manjares e o jeito sexy da chef fatale merecem um post grande e ilustrativo, mas espero o teste final da torta de chocolate. Até!

Gump 2 in Tender is the Night

22/01/2009

Minha primeira impressão sobre “O Curioso Caso de Benjamin Button” foi de um filme impecável em todos os aspectos, interessante e divertido. Levantei da cadeira um fã da atuação da maquiagem de Brad Pitt. Mas conforme caminhava em direção a saída, não pude deixar de comentar a sensação de que já havia visto aquilo antes.

As palavras seguintes saíram com naturalidade: “Porra, até parece Forest Gump”. Eu sei que não fui único a pensar justamente nisso. Mas vou salientar algumas semelhanças.

1. Tanto Gump (Tom Hanks) quanto Button (Brad Pitt) são do sul dos EUA, tem sotaques parecidos e dizem “Mamaaa” do mesmo jeito anasalado;

2. Ambos possuem uma condição que limita seu relacionamento com outras pessoas, mas não os impede de desbravar o mundo e desenvolver seu potencial. Gump é deficiente mental, mas conhece alguns presidentes e John Lennon. Button tem setenta anos aos 17 e vive também a efervescência cultural de seu tempo;

3. Nos filmes, os dois tem dificuldade para caminhar. Gump usa muletas assim como Button e depois com um empurrão do destino deixam-nas de lado;

4. Nos filmes de David Fintcher e Ron Howard, os protagonistas passam parte de sua jornada em barcos: Gump pesca camarão e Button faz parte da tripulação de um rebocador.;

5. Os dois vivem guerras e perdem seus melhores amigos nelas. Gump perde Bubba (camarão com queijo, camarão no espeto, pastel de camarão) no Vietnam. Button perde o capitão do navio na Segunda Grande Guerra. Ambos aprendem algum significado de vida com seus amigos, como viver ao máximo e coisa do tipo.;

6. Gump e Button enriquecem rapidamente e com sorte de uma gente iluminada por Deus, de fato. Gump porque investiu o dinheiro do camarão numa tal de Apple – uma companhia que vende frutas, creio – e Button porque seu pai milionário reaparece e lhe deixa uma fábrica de botões (negócio atraente!);

7. Os pares românticos são conhecidos desde a infância pelos protagonistas dos filmes. Essas personagens são espirituosas, rebeldes e aventureiras, além de inspirarem as ditas ilíadas dos filmes.

The Curious Case of Forrest Gump

A diferença reside na qualidade do texto. Afinal “O Curioso Caso” vem de um conto de F. Scott Fitzgerald, tudo que cerca as personagens é um símbolo de ostentação, poder, luxo e acesso. Uma viagem a Paris é um pulinho para um americano rico e bonito. A essência de Fitzgerald, além de ter captado o zeitgeist de sua geração dourada, é de ter feito de sua obra um manual do estilo e do bom gosto. Por enquanto só li “Suave é a Noite” e “O Grande Gatsby”. Não tenho autoridade para falar muito mais que isso, mas o verão é longo e quente como em Cannes. Lendo, já me sinto um Dick Diver, elegante e charmoso, entre estrelas do cinema, casais ricos e pintores.

“Então é hoje que o ‘crioulo’ toma posse?”

22/01/2009

1. Foi na última terça-feira, na verdade. Mas ouvi a pergunta no mesmo dia, do que se pode chamar de um turco-taxista injuriado com o trânsito. Talvez pra ele não faça tanta diferença se o ‘crioulo’ tomou posse ou não, quer mais saber se o preço da numerada no Pacaembu pra ver o Corinthians no Paulistão vale a pena (Aaah R$150,00). Diretoria entenda como no discurso do homem: “estenderemos uma mão, se vocês abrirem os punhos”.

Como o taxista também me tornei indiferente depois do presente consumado. Explico. É difícil ligar para alguma coisa numa sociedade pós-racial, pós-moderna, pós-Bush. Obama é tão sério, íntegro e competente que rouba as melhores piadas, as melhores sensações de superioridade moral.

Sinto quase saudades do outro que nem domínio da oratória digna do cargo possuía. Até encerrar sua estadia na Pennsylvania Avenue 1.600, inspirou o simples e humano prazer de mostrar o que há de mais vil na alma humano: mentira, violência, corrupção, ignorância. Bush foi nosso Nixon (e mais), quando subiu no helicóptero esperei um aceno de 35 anos atrás, algo como o “chocalhar de um homem quebrado”. Um peixe morto, assim como descreveu Simon Winchester para o The Guardian em célebre reportagem de 1974.

Apontar defeitos em Bush nos engrandecia e daí tanta prosperidade em seu período. Podia-se fazer mal, só não se podia fazer pior que ele. Agora, nem isso. Não é puro cinismo do destino? O Nixon de Oliver Stone olha o retrato de Kennedy e diz: “Quando olham para ele, vêem o que gostariam de ser. Quando olham para mim, vêem o que são”.

Indiferente agora, mas ansiosamente feliz. Obama é nosso herói, como é Nelson Mandela, como foi Kennedy e, inclusive, Lady Di. Esse “crioulo” pode até vir a errar e demonstrar falhas de caráter como todos os outros, mas sua história e seu momento nas nossas vai minimizá-las por completo… Como todos os outros.

2. O regojizo se fez persona. Quem viu Obama apreciando seu concerto, acompanhou-no pelo menos em seu êxtase. Após o discurso de Feinstein, a cantora afro-americana Areta Franklin subiu ao palco e cantou a música “My country tis of thee”. Também realizaram apresentações artísticas os músicos Itzhak Perlman, Yo-Yo Ma, Gabriela Monteiro e Anthony McGill. Juntos, eles tocaram a canção “Air and Simple Gifts”.

“I’m gonna call you private Joker”

14/01/2009
"Sou uma pessoa de fácil convivio"

R. Lee Ermey: "Sou uma pessoa de fácil convívio"

"You can come to my house and fuck my sisters"
Norberto do BB9: “You can come to my house and fuck my sisters”

Você acompanha? Eu sei que só de vez em quando. Mas neste ano o BBB vem com novidades interessantes para a sua nova edição. Entre as aplicadas estudantes de Direito e os caras que se dizem empresários, a Globo agora vai prostituir a imagem de gente na “feliz idade” também. Como a desse tio acima, o Norberto.

Ele não lembra o sargentão interpretado por R. Lee Ermey em Full Metal Jacket (1987) do Stanley Kubrick?. Torço por ele. Que toque o terror por lá.